sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Por enquanto, tchau

Por Anacris Maia

Quando foi que a gente deixou de se ouvir? Qual foi o momento que gerou mágoa ou decepção a ponto de se cristalizar, tornando insignificante qualquer fala do outro? Quando foi que a gente deixou de se ouvir, quando foi?

Você diz que não suporta minhas cobranças e eu não suporto sua indiferença. Situações insuportáveis que tornaram a nossa relação insuportável e a gente não soube superar, ou não quis superar. A minha reação, causava a sua reação, que causava a minha reação, como num círculo vicioso e tóxico.

Um de nós deveria ceder. Mas, como ceder quando a gente já está vendo no que isso vai dar? Como ceder, quando a gente já não sabe mais se as coisas que sonhamos juntos queremos continuar sonhando? Como ceder diante de tanto cansaço, tanto desgosto, é mais simples ficar olhando tudo se esvair e caminhar até o fim inevitável.

A paixão e os sonhos estão no passado. Saudades de quando éramos felizes. A gente se divide entre o que é preciso fazer e o medo da dor e da solidão. Eu queria que fosse diferente, e acredito que seria diferente, mas, orgulho e teimosia não são bons conselheiros embora sejam os mais convincentes.

Além de surdos um para o outro, não nos vemos. Eu ignoro o mal que te causo e você e mal que me causa, aliás, justificamos nossas ações, mas, justificar não significa buscar solução, significa apenas mais uma forma de desculpa, de não querer dar o braço a torcer. Somos cegos para nossas ações e situações.

Quero ficar, mas, não sei se você quer segurar minha mão. Eu sinto sua dúvida, seu medo. Eu também tenho dúvidas. Na verdade, nunca soube se fui seu grande amor ou só um estepe e você nunca soube lidar com isso.

Nossa cegueira e surdez nos separaram. Passamos um tempo da nossa vida tentando impor um para o outro nosso ponto de vista, nosso jeito de levar a relação. Nas nossas conversas, prometíamos mudanças que nunca aconteceram. Eu queria de um jeito, você queria do seu.

Na verdade a gente queria que desse certo, mas, certo para quem? Se todos os acordos, planos e promessas nunca passaram disso, palavras vazias, sem nenhuma ação. A gente está exatamente onde queria estar, porque não movemos esforço algum para estar diferente.

Já sinto saudade, saudade do que éramos e do que poderíamos ter sido. Saudades de todas as oportunidades perdidas que poderiam ter nos tornado melhor. Saudades de quando eu sonhava com a gente. Hoje a realidade cai pesada, rompendo com possibilidades. Se eu te amo? Muito. Se faria diferente? Certamente. Mas, nem todas as relações acabam por falta de amor e segundas chances estão mais raras. Já estou sentindo muita saudade.

Dessa Vez

Composição: Nando Reis

É bom olhar pra trás e admirar a vida que soubemos fazer

É bom se apaixonar, ficar feliz, te ver feliz me faz bem

Foi bom se apaixonar, foi bom, e é bom, e o que será?
Por pensar demais eu preferi não pensar demais
dessa vez..
Foi tão bom e porque será
Eu não vou chorar, você não vai chorar
Ninguém precisa chorar mas eu só posso te dizer
Por enquanto, que nessa linda estória os diabos são anjos

É bom olhar pra frente, é bom nunca é igual
Olhar, beijar e ouvir, cantar um novo dia nascendo
É bom e é tão diferente
Eu não vou chorar, você não vai chorar
Você pode entender que eu não vou mais te ver
Por enquanto, sorria e saiba o que eu sei eu te amo

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O tédio nosso (meu) de cada dia

Postado em 09.04.2009

Por Anacris Maia

É quinta-feira à noite e estou escutando James Blunt, KT Tunstall e outras coisas do gênero. Até antes de começar a escrever estava deitada na minha cama olhando para o teto. Às vezes cantava um refrão, outras vezes ficava pensando no que eu gostaria de fazer nessa noite quente e agradável. Quem sabe um cinema? Não sei o que está passando, mas, também não me importo. Um barzinho? Tomar cerveja e ficar falando besteira e rindo à toa? Proposta tentadora! Até balada está valendo, qualquer coisa para ouvir música alta, gritar/cantar para exorcizar dias ruins. Ok, sei que estamos na Semana Santa e provavelmente nenhuma boate vai cometer o sacrilégio de abrir, mas, a verdade é que eu não me importaria de estar numa.

Continuando a minha lista, talvez um jantarzinho gostoso num lugar romântico onde pudesse trocar carinhos...(suspiro). Qualquer uma dessas opções me deixaria bem mais alegre e animada do que estou agora. Sem vida social, resta-me apenas música e livros. A sedução e as intrigas de As Ligações Perigosas, de Choderlos de Laclos consegue me tirar um pouco da mesmice. Quando quero dar um pouco de risada, leio Dewey, um gato entre livros, de Vicki Myron. Enjoada dos livros vou ver se tem alguma matéria interessante na Galileu do mês e em última instância vou ler os pensadores românticos para a prova de semana que vem.

Como podem ver, minha vida é interessante (estou sendo irônica, por favor!). São tantas aventuras na ficção e tão poucas na vida real. O bom e velho bigode Friedrich Nietzsche já falava sobre a importância de experimentar mais a vida ao invés de só lê-la pelos livros – sejam de literatura ou filosofia.

Eu adoro escrever para o Produção, mas – perdoem-me os leitores fiéis – se hoje o faço é por pura falta de opção. Preferiria muito mais estar fazendo algo que rendesse histórias mais interessantes, porém, sem material empírico, só me resta compartilhar do meu tédio com vocês.
Bem que a vida pelo menos uma vez ou outra podia ser como nos filmes, onde no momento exato o telefone toca ou se é surpreendida com alguém interessante quando se está totalmente sem esperança de que algo aconteça. A gente sabe que não é. Por exemplo agora, por mais que eu faça um exercício telepático e tente entrar na mente do meu namorado para que ele se convença de que está com saudades e se anime a vir me ver, isso não acontece. Meu celular não dá nem sinal de vida.

Vocês podem estar se perguntando: “por que você não liga para ele?”. Não ligo porque quero evitar o desgaste de escutar que ele não vem, que está cansado, que não quer pegar a Dutra em véspera de feriado etc, etc. Pelo menos escrever para o Produção me distrai e impede que eu faça besteiras.Em suma, os próximos dias não serão muito diferentes. Não tenho nada programado no meu roteiro de vida real. Quem sabe, assim como nos filmes, alguma coisa inesperada aconteça nesses dias e na segunda-feira (ou até antes disso), eu venha postar alguma novidade, dessa vez algo mais empolgante, entusiasmado. Minha razão me faz acreditar que nada vai acontecer, porém, não consigo abandonar a fé dentro de mim de que alguma coisa poderá acontecer amanhã ou depois ou depois... Eu vou torcer!

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Relacionamento é feito de paixão e algo mais

Publicado em 25.06.2009
Por: Anacris Maia

Não tem coisa que produza mais material para o blog do que conversa no boteco com amigos – homens e mulheres. A perspectiva que ambos os sexos têm em relação a paixão não é apenas diferentes, mas, também engraçada. Se de um lado as mulheres querem um homem apaixonado, educado, um “amante à moda antiga, do tipo que ainda manda flores” e abre a porta do carro, os homens por outro lado acham isso uma chatice sem tamanho que nada tem a ver com estar apaixonado.

Diante disso vivo me perguntando se a idéia que tenho de paixão – e que a maioria das mulheres têm – foi construída e sentida por nós mesmas ou idealizada pela avalanche de comédias românticas que pelo menos a maioria de nós simplesmente adora. É quase impossível não dar um suspiro diante de uma frase dita na hora e momento certo. Ou depois de uma discussão ver o mocinho ir até o encontro da mocinha todo arrependido e dizendo que a ama. Atire a primeira pedra, que mulher não se derrete – e chora – vendo essas comédias deliciosas?

E é comum nós mulheres, nos sentirmos frustradas em nossas relações por não conseguirmos mais ter o clima apaixonado e de conquista depois de algum tempo de namoro. Seguido disso, vem o ceticismo: “homem apaixonado não existe”, “homem só é romântico em início de namoro, quando está nos conquistando”. Será que me pleno século XXI ainda não deixamos nossas heranças ancestrais e continuamos sendo presas a ser caçadas pelos homens?

O que posso afirmar é que a insatisfação é generalizada. Até que um amigo se levanta a favor dos homens e pronuncia a sentença fatal: “Garanto que vocês iriam nos julgar pegajosos se fizéssemos isso durante dois meses”. E no fundo ele tem um pouco de razão, afinal, tudo que é demais sufoca, irrita... Ligar 24 horas por dia deixa de ser saudade e passa a ser vigilância. Lotar sua caixa de e-mail e te cobrar para respondê-los é pensar que a gente não tem nada o que fazer durante o dia – e cá entre nós, parece que ele também não. Flores também são bem-vindas, desde que na medida certa, afinal, chega uma hora que acabam-se os vasos e só nos resta colocar uma plaquinha na frente de casa anunciando “Floricultura Relâmpago”. Enfim, quando se trata de mulher é comum o homem pecar por falta ou excesso.

E o problema é esse mesmo, homem não conhece a justa medida. Ou sufoca ou deixa correr solto. É óbvio que não queremos ser asfixiadas com tanta doçura, mas, também não precisa nos tratar como lugar comum ou em linguagem mais primitiva, como caça abatida. Reconhecemos que depois de um tempo os agrados diminuem – DIMINUEM, não DESAPARECEM – o que pelo menos para nós mulheres acaba dando uma “mornada” na relação.

Mas, não é por mal. Mulher gosta de encantamento e de ser bem tratada. Mulher gosta de receber um telefonema fofo no final da noite, depois de um dia atribulado e também de ter uma palavra amiga quando a coisa não está fácil. Mulher não gosta de ver tratada suas limitações e inseguranças como chatice ou loucura. Mulher gosta de se sentir especial e amada, independente das flores, torpedos, fogos de artifícios e declarações apaixonadas.

Somos difíceis de agradar, no entanto, gestos simples nos conquistam. Particularmente vejo que os homens não sabem mais como lidar conosco. Estão divididos: de um lado, querem puxar a cadeira para que sentemos, mas, de outro se sentem acuados só de pensar num possível “eu consigo puxar uma cadeira sozinha”, das mulheres mais “bem-resolvidas”.

É claro que uma relação é feita de detalhes bem mais importantes que cordialidades e etiquetas. O que ameaça uma relação e isso vale tanto para homens quanto para nós mulheres, é que nossa capacidade de manter interesse e enxergar o outro como alguém especial e único tem se tornado cada vez mais difícil. Descartamos celular antigo, computador obsoleto, sapatos do ano passado, em suma, perdemos cada vez mais o olhar de novidade que o outro exerceu – e que exercemos sobre o outro – durante um tempo.

Por isso, o namoro, casamento, rolo ou qualquer outro tico-tico no fubá se desgasta. A gente enjoa fácil, se empolga fácil, enfim, tudo é muito fácil... Com tantas novidades de acesso rápido e ao alcance das mãos fica difícil manter-se o que é antigo. Manter o “olhar de primeira vista” torna-se um desafio e também um exercício constante de resgatar diariamente a lembrança daquele sorriso que te conquistou, daquele ombro que te amparou na hora do choro, das piadas ditas depois de algumas garrafas de vinho e dos micos que renderam boas risadas.

Se por um lado, relacionamentos novos são recheados de surpresa, são as histórias de um relacionamento antigo que mantém duas pessoas unidas. Tornar objetos descartáveis é uma coisa, tornar pessoas descartáveis é sinal dos tempos. Sinal que estamos confundindo as coisas e que nossa vontade de ser feliz pode ser apenas um poço sem fundo onde nada satisfaz e tudo é efêmero. Como disse no início, achar a justa medida é fundamental, assim como a paixão, para não jogarmos fora o que já levou um tempo para ser conquistado e construído.

Quem assistiu "O Melhor Amigo da Noiva", sabe que uma relação é feita de amizade, afinidade, descoberta, um Patrick Dempsey...

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Diário de Viagem: Ipojuca/Porto de Galinhas - PE



Por: Anacris Maia

Essa é a primeira parte do texto contando a viagem que Ricardo e eu fizemos para Ipojuca/Porto de Galinhas – PE na semana do feriado de 7 de setembro. Decidi fazer assim para não ficar chato nem cansativo na hora de ler, nos próximos dias teremos mais posts.

Quem comprou o Guia Quatro Rodas 2010 – Porto de Galinhas, deve ter se maravilhado com as imagens das piscinas naturais – até sonhou em mergulhar junto aos peixinhos. Além das piscinas, praias desertas com águas calmas e tranqüilas devem ter feito você acreditar que havia encontrado seu paraíso particular. Pois bem, essas imagens e orientações do guia, motivaram o Ricardo e eu a conhecer in loco a praia “mais linda do Brasil”, eleita oito vezes consecutiva pela revista Viagem.

Antes de falar sobre nosso passeio e experiência algumas coisas precisam ficar claras: nosso período de viagem foi de 04 a 10 de setembro, portanto, pegamos um feriado. Acreditando que após terça-feira, dia 07, a cidade ficaria mais tranqüila, evitamos reclamar do vuco-vuco que estava na cidade e do verdadeiro piscinão que as praias se tornaram devido ao número elevado de turistas. Nossa esperança era que na quarta-feira o fluxo diminuísse e que pudéssemos desfrutar do sossego das praias tão bem “vendido” pela revista.
Minha intenção neste texto não é de forma nenhuma desmerecer a natureza e beleza das praias de Pernambuco, mas, também não estou sendo paga para “vender” o local, portanto, falarei honestamente sobre minhas impressões e comentários que Ricardo e eu fizemos durante o período que ali estivemos. Gostaríamos de ter lido algo assim, pelo menos iríamos mais bem preparados. Nós tínhamos grandes expectativas com essa viagem e estávamos deslumbrados pelas imagens que vimos. Amo praia, natureza e animais e confesso que o que vi em Ipojuca/PE, município onde se encontra a praia de Porto de Galinhas, me deixou um pouco chateada, no mínimo.

Primeiro vamos falar sobre preservação. Eu não sou formada em Biologia, mas, não precisa ser um especialista, nem muito inteligente para entender que aqueles corais são organismos vivos que servem de casa para outros seres vivos, em especial ouriços do mar, algas, estrelas do mar e outras espécies de vida marinha que eu desconheço. Bem, chegando à praia Porto de Galinhas, numa maré baixa – depois explico o lance das marés – conseguimos ir caminhando pela água, sim, como a travessia do mar vermelho, (desculpe a analogia, mas, não pude evitar) até às piscinas naturais.
Na minha cabecinha ecológica eu imaginei que fosse proibido andar pelos corais, que são imensos, até porque já tinha lido a respeito e sabia que eles estavam “morrendo” justamente por serem pisoteados por turistas. Mas, antes de subir nos corais, fiscais distribuem uma pulseirinha, que até agora não entendi para que serve. Se é para controlar o fluxo de turistas não adiantou nada, quando foi liberada a passagem uma boiada de gente ensandecida, como se tivessem aberto as portas de alguma loja em liquidação começou seu passeio... E as cordas que servem para sinalizar, dificilmente são respeitadas.

Aquilo me incomodou tanto, que eu não queria ficar ali. Não queria colaborar com aquela destruição. E para me emputecer ainda mais, quando estou saindo dos corais me deparo com uma mulher, que deve ser lesada ou songa, chutando um bicho e perguntando se é vivo. Puta que pariu!!! Me perdoe os que não falam palavrão, mas, não dá pra segurar! Nessa hora me pergunto por quê ouriços do mar não são animais violentos que voam em turistas assim que pisam na casa deles... Nem tudo que Deus faz é perfeito, que pena!

Ah, outro detalhe: demos uma esticadinha até Maragogi/AL e diferente de Porto, recebemos muitas informações e dentre elas a de não pisar nos corais, porque além obviamente de nos machucar, estaríamos destruindo organismos vivos. Nas palavras do guia que nos acompanhou no Catamarã: “nós preservamos os corais e não fazemos como em Porto de Galinhas, que já tá quase tudo morto de tanto turista ficar pisando”. IBAMA, Sea Shepherd, WWF, Greenpeace, vale a pena dar uma olhadinha, uma pesquisada mais profunda e ver se o que é feito lá, póóóde.

MARÉS

Eu não sei lá no Nordeste, mas, nós do Sudeste gostamos de ficar de molho na água até o sol sumir... Eu adoro ficar na água o tempo todo até virar uma ameixa enrugada. Para quem procura longos banhos de mar, talvez, as praias de Ipojuca não sejam assim tão recomendadas e eu explico por quê.

Maré é comum em todas as praias, mas, no caso do Nordeste elas devem ser consultadas antes mesmo de fazer as malas para embarcar. É a tábua de marés que indica o período em que as marés estão mais baixas e adequadas para se ver as piscinas naturais. Ansioso e precavido como é, o Ricardo verificou isso um mês antes da viagem e escolheu uma semana considerada excelente para se visitar as praias.

Até aqui, tudo tranqüilo. O fato de você não acordar no horário em que a maré está mais propícia para ver as piscinas, não significa que você vai ficar sem um banho de mar, concorda? Ledo engano. Se você perdeu o horário da maré baixa, não só perdeu de ver as piscinas naturais como perdeu também um dia de praia. Quando a maré volta a subir, o mar invade tudo numa velocidade e violência que nem os mais corajosos se arriscam. Detalhe: a maré baixa dura de duas a três horas no máximo.

Desconhecendo o tsunami pós-maré baixa, Ricardo e eu nos preparamos para conhecer a praia de Muro Alto, onde o paredão de corais forma uma piscina natural tranqüila e transparente (pelo menos nas fotos). Estávamos cientes de que estávamos indo fora do horário da maré baixa, mas otimistas pensando que, se não veríamos uma lagoa de água salgada poderíamos pelo menos tomar um banhozinho de mar. Nos enganamos de novo. Eu estava sentada na beira da praia e já assustada com a invasão da água. A situação piorou quando o dono do quiosque colocou nossa mesa praticamente em cima de um barranco.

Mas, eu estava decidida a me banhar no mar e me arrisquei mesmo assim. Não fiquei nem 10 minutos na água que me arrastava para tudo quanto era lado. Não preciso nem falar que não demorou muito para nós dois decidirmos ir embora. Diante disso nossa impressão não foi das melhores e infelizmente não conseguimos mudá-la porque não conseguimos ver Muro Alto durante o período de maré baixa. Mas, vale a dica, se perdeu o horário das marés, evite conhecer as praias para não se decepcionar. Fique na piscina do hotel, vá para a vilinha gastar dinheiro...

Aí onde estão as jangadas são onde ficam as piscinas naturais. Com a maré baixa você consegue ir a pé, mas, se não der, com R$ 10 por pessoa os jangadeiros te levam até elas. Ah, e também dão ração para você jogar para os peixes. Outra coisa que não aprovei...


Essa piscina, por causa do formato, recebeu o nome de "mapa do Brasil". De acordo com um taxista, ela já foi mais parecida com nosso mapa, mas, devido as visitações os turistas acabaram quebrando alguns pedaços.

Isso aí é no meio do mar. No caminho encontramos diversas espécies marítimas e poças com peixinhos.

Crédito das fotos: Ricardo Nechar

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Shakespeare e os Grandes Amores e os Amores Possíveis

[Inédito]
Por Anacris Maia

Será que os grandes amores só são grandes porque não foram vividos? Será que Shopenhauer estava certo quando afirmava que um desejo satisfeito logo perde sentido e outro surge no lugar? Somos mesmo tão insaciáveis assim? É comum, ainda que não declarado, cada um de nós carregarmos histórias de amores inesquecíveis.

Essas histórias impossíveis nos sustentam e nos aquecem nos invernos da vida. Relembrar bons momentos de épocas em que estávamos ingenuamente, inocentemente apaixonados e felizes trazem sim, aconchego e calmaria para nossas tormentas pessoais. Por motivos que a gente desconhece ou conhece muito bem, não deu certo. Os dias de paz e leveza se foram e o tempo tratou de arrastar as lembranças dessa época boa para um canto qualquer, guardado em nós e no qual temos acesso sempre que queremos.

Hoje, numa aula de Língua Portuguesa em que durante toda a semana discutimos a produção do texto teatral, resolvi dar uma relaxada e passar o filme Shakespeare Apaixonado (Shakespeare in love, EUA, 1998) para uma turma do primeiro ano do Ensino Médio. Enquanto eles assistiam o filme, observava seus rostinhos se emocionando e se envolvendo com a história do poeta e dramaturgo inglês que ao encontrar sua musa, a jovem Viola, se inspira para escrever a maior história de amor de todos os tempos: Romeu e Julieta.

Tudo corria bem, até o final revelador, mas nem tanto, de que o pobre casal não teria chance de viver seu grande amor. Ao fim do filme, comentários indignados do tipo “não gostei do filme, ele não fica com ela”, “nada a ver esse final professora!” fervilhavam na sala. Depois de uma breve conversa, afinal faltavam só alguns minutos para o fim da aula, tentei acalmar o ânimo dos mais românticos mostrando a idéia central do filme que era o paralelo entre a vida do autor e sua principal obra. Mas, ao sair daquela sala, eu quem tive a inspiração para escrever esse texto.

Eu não sei se os grandes amores só são grandes porque não foram vividos. Eu teria que ter tido a chance de vivê-lo, teria de ter tido a chance de convivê-lo e também teria que viver no mínimo uns 200 anos para errar, assumir o erro, voltar para então concluir se esse amor era mesmo tudo o que eu havia idealizado. Mesmo assim, deixei-me envolver pelo otimismo juvenil e da idéia de amor eterno e felizes para sempre que aparentemente 90% da sala demonstrou esperar.

Grandes amores, talvez só sejam grandes, porque o que amamos é o que idealizamos que seria caso a história se concretizasse. Amamos a idéia que temos da pessoa e vivemos em retrospectiva, recorrendo a lembranças de dias, semanas, meses ou quem sabe anos que passamos juntos, mas, não deu certo. Um grande amor não foge ao ideal platônico. Ele nos faz bem porque na nossa idéia de relação, tudo é perfeito.
As falas são ditas no momento exato, o amparo vem do jeito certo, o roteiro foi escrito por nós e o mais legal, como protagonistas-mocinho, sempre nos damos bem.

Outro dia estava pensando porque sofremos tanto quando rompemos com alguém. Minha tese é a de que nosso sofrimento é gerado por conta de que nossa mente, enganadora e seletiva, superestima os bons momentos e subestima os maus. Ou seja, de repente, aquela pessoa tornou-se perfeita de novo, os defeitos que antes eram odiados tornam-se estranhamente “engraçadinhos”. Nossa memória apaga tudo de ruim que vivemos ao lado da outra pessoa: brigas constantes, ciúmes doentio, insensibilidade, indiferença, egoísmo, narcisismo, incoerência, insegurança...

O fim da relação já tinha começado há muito tempo por esses e outros motivos, mas, no momento em que chegamos em casa e nos vemos sozinhos no nosso quarto, na nossa cama, nossas ilusões voltam, nossos desejos renascem, nossa ânsia de grande amor se instala e começamos novamente a imaginar o outro, sim, aquele cara que já não tinha mais a menor graça no dia-a-dia, de repente ganha o título de grande amor perdido.

Mas, voltando ao tema inicial, será que é possível nos sentirmos satisfeitos com nosso “médio amor” frente à busca inesgotável que temos de encontrar o “grande”? Será que somos mesmo pura insatisfação? Teremos que conviver por toda a vida acreditando que a grama do vizinho é sempre mais verde? O sociólogo Zygmunt Bauman em sua obra Amor Líquido mostra a fragilidade das relações ao apontar nossa dificuldade em criar vínculos, pois ao assumir um relacionamento estamos automaticamente excluindo todas as outras opções, ou seja, todos os outros ou outras que poderiam ser nossos grandes amores.

Até aí ok, na teoria estamos afiados. Mas, e na prática? Todas as tentações, tantas possibilidades, tantos anseios e desejos. Às vezes, penso que a resposta é uma só: assumir os riscos. Isso significa às vezes, ter sim que perder um grande amor porque enquanto ele estava com a gente não conseguíamos reconhecê-lo como tal. Significa se decepcionar, se frustrar, significa ter que descer ao inferno pra ver se consegue um pouco de paz. É só com porradas e perdas que a gente aprende mesmo.

O problema é que pagar pra ver – ou não pagar – implica maturidade e se responsabilizar pelos danos. Podemos já ter encontrado nosso grande amor, mas, ainda estamos presos ao amor idealizado, então, nos sentimos insatisfeitos. Da mesma forma, podemos arriscar um “grande amor real” em busca de um “grande amor ideal” e percebermos o monte de tralha no meio da estrada. Podemos romper com esse idealismo e viver em paz com nosso amor de realidade, nosso amor possível ou podemos tentar encontrar o impossível, mas, quem garante que não é mais uma ilusão como tantas outras? Ninguém nunca pagou o preço pra contar...
Agora, quando estamos presos em barca furada e percebemos isso, aí a história muda de figura. Mas, mesmo reconhecendo isso, a decisão às vezes demora. Cada um tem seu tempo. Cada um sabe até onde consegue suportar. Normalmente a gente sabe o quanto vale – por favor, sem apelo capitalista ou financeiro – e se nos contentamos com menos é mais por uma questão de conformismo que covardia.
Por isso, por convicção e experiência sei que um dia a gente se liberta, conseguimos colocar um basta em tudo que nos desagrada, que apequena nossa alma, nossos sonhos, nossas buscas. O preço a pagar é alto? Eu acho que é alto pra caramba! Mas, é uma escolha. Podemos testar nossas possibilidades ou ficar com nossa vidinha confortável, mas ordinária.



titulo original: (Shakespeare in Love)
lançamento: 1998 (EUA)
direção: John Madden
atores: Joseph Fiennes, Gwyneth Paltrow, Geofrey Rush,
Judi Dench, Ben Afleck, Colin Firth
duração: 2'04''
gênero: Comédia

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Estou ficando louca?

[Inédito]

Por Anacris Maia

Advertência: este é um texto non sense que levará à lugar nenhum. Foi uma tentativa vã de organizar as idéias que andam entulhadas em minha cabeça, uma vontade de se sentir bem e um pouco em paz.


Como sabemos que estamos certos? Qual a linha que separa o melindre do bom senso? Há alguém que verdadeiramente conheça esse limite? A todo o momento estamos recebendo informações, trocando idéias, agindo, reagindo e refletindo sobre as ações dos outros para conosco e no fim, quem tem razão? Aliás, existe razão ou apenas lados a serem tomados ou recusados? A imparcialidade é um mito, nunca ninguém foi imparcial. Há crenças, afinidade, empatia e toda uma avalanche de sentimentos que não nos permite adotar essa postura.

O filósofo medieval Pedro Abelardo (1079 - 1142) dirá que nossas intenções são o que valem, portanto, se formos mal interpretados em nossa ação ou se ela descambar para um caminho diferente do planejado podemos nos eximir da culpa, porque a priori nosso plano era outro. Já o contemporâneo – mas, nem tanto – Nietzsche (1844 – 1900) desconsidera a verdade e afirma que não há certo ou errado, apenas perspectivas diferentes frente a uma mesma situação.

Como ainda não temos o dom da telepatia para reconhecermos as intenções que levaram determinada pessoa a tomar uma atitude que sob o nosso ponto de vista não foi agradável, contamos apenas com nossas impressões e perspectivas para “julgarmos” aquilo que fazem conosco. E aqui, também tem um problema. Se formos pusilânimes e condescendentes demais corremos o risco de sermos bobos, aquele tipo que as pessoas fazem de gato e sapato e num coitado que se conforta com um “ah, ele não tinha intenção” e passa a vida aceitando maltrato, se contentando com migalhas e relacionamentos pela metade.

Por outro lado, temos aqueles que querem ter sempre razão e muitas vezes não enxergam que suas ações, ainda que sem intenção, magoam. Querer ter sempre razão é como enxergar com um olho só, o outro olho que está tampado ou cego não permite visão periférica, não permite enxergar o que o outro está descrevendo e vivenciando. Como na cabeça do cegueta ele não tinha intenção de magoar, não consegue compreender porque o outro se sente tão magoado.

Como saber que não estamos fazendo tempestade em como d’água? Como saber se não estamos neuróticos e loucos frente a tantas explicações de tantos atos que nos ocorrem diariamente e de alguns que nos ferem? E se não temos razão para sentir tanto, porque sentimos? Por que dói? Acho que sentir deve significar alguma coisa, não?

Mas, frente a isso abrimos um outro leque de possibilidades: muitas vezes aquilo que me magoa, passaria despercebido por “a” ou “b” e muitas coisas que chatearia “a” ou “b” não teriam sentido pra mim, talvez, seriam até engraçadas e divertidas. Estou com a sensação de estar como um cachorro girando atrás do rabo. Esse texto não vai chegar a lugar nenhum!

Por que as vezes nos sentimos vítimas? As vezes nos sentimos certos? As vezes nos sentimos abandonados? Excluídos? Pouco amados? Feridos? Os livros de auto-ajuda responderiam que você se sente assim porque seu olhar sobre si mesmo está destorcido, porque sua auto-estima está baixa ou quem sabe porque se permite. Será mesmo que somos tão birutas a ponto de gostarmos de sentirmos tudo isso que sentimos e continuemos cultivando essas sensações?

Amados 100% por todas as pessoas que conhecemos é impossível. Eu não amo 100% das pessoas que conheço, portanto, não posso exigir isso delas. De algumas, suas ações não me afetam. Outras, me entristecem. No fim das contas, deve ser tudo desejo de aceitação de quem para mim tem importância. Mas, e se damos importância para quem não nos dá importância?... É, uma coisa leva a outra e discutir esse assunto é pensar possibilidades elevadas ao infinito. Cansei de brincar de escrever por hoje.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Sobre conselhos ou a falta deles

[Inédito]

Por Anacris Maia

Sempre me considerei melhor ouvinte que boa conselheira, não porque dou “maus” conselhos ou porque falo coisas nada a ver, mas, porque acredito que conselhos são uma forma de definir uma situação sob um único viés. Em O Existencialismo é um Humanismo, o filósofo francês Jean Paul Sartre (1905 – 1980), diz que quando escolhemos alguém para nos aconselhar já sabemos que tipo de resposta teremos e normalmente o escolhemos para confirmar nossa resposta, ou seja, já sabemos o que fazer, já nos comprometemos antes conosco e só esperamos o aval de alguém.

Outra coisa que me incomoda em conselhos é essa coisa preto no branco. Não dá para a gente tomar decisões que mudam nossa vida, que nos farão sofrer – ainda que essa dor seja necessária para nos libertar – pensando sob a lógica do “pau é pau, pedra é pedra”. Entre esse preto no branco existem variações de cinzas, existem coisas não ditas, omitidas seja por vergonha, seja por medo de julgamento. O fato é que um conselheiro nunca sentirá verdadeiramente o que o outro está sentindo.

Também desconfio de pessoas com respostas pra tudo, sempre muito ágeis de pensamento. Acho que quem tem resposta rápida não sabe ouvir, está com tanta pressa de palpitar que esqueceu-se da compaixão, da empatia, do colocar-se no lugar do outro. Ou você nunca teve a sensação de que é fácil resolver os problemas dos outros, mas, difícil resolver os seus? Falar para o outro largar um emprego e partir para outra é fácil, difícil é compreender seus medos, suas inseguranças, suas incertezas. Dizer para abandonar um relacionamento em frangalhos é fácil, difícil é compreender que existem vínculos, histórias que a pessoa talvez ainda não queira abrir mão ou queira resgatar. Quem sabe exista até amor.

Cair em clichês também é outro risco. Além do tipo “olhe para dentro de você. Você sabe o que fazer” outro que me mata é “estarei rezando por você”. Caramba! Meu problema é concreto, palpável, real, portanto, a solução não pode ser metafísica. Porém, tem clichês que carregam um fundo de verdade ainda que odiemos ouvir isso quando estamos passando por um momento de dor, é aquele de que “o tempo dará conta de tudo”. E eu acredito nesse poder irrefreável do tempo, ainda que naquela situação a gente só queira ser paralisada por ele e voltar a viver quando a situação melhorar.

E o cúmulo do egoísmo então? Você chega para falar com um amigo sobre alguma situação e a conversa vira uma competição para ver quem é o mais desgraçado. Você fala sobre sua dor e o outro retruca “a sua é fichinha perto da minha”. Minha resposta para essa ação é uma só: “sei que existem inúmeras dores no mundo, mas, hoje meu amigo, só hoje, a minha é a pior de todas e é insuportável, porque sou eu quem está sentindo”. Essa resposta pode parecer intolerante e egoísta, mas, a verdade é que é insuportável pessoas que só conseguem olhar para elas mesmas, sem contar que não acredito nesse papo de olhar a desgraça do outro para se sentir um pouco melhor.

Agora, se egoísmo é o fim, julgar o outro é o Top 10 da lista. Sobre isso, Nando Reis tem uma frase muito boa: “é fácil culpar os outros, mas, a vida não precisa de juízes a questão é sermos razoáveis”. Quem pode ser tão super homem / mulher a ponto de julgar as ações de alguém, dizer com o dedo em riste se agiu certo ou não? Será que é tão difícil compreender que cada um tem uma história, seus motivos, suas verdades? Muitas vezes o outro já está arrasado e sofrendo e tudo que precisa é de um bom ouvinte, mas, acaba encontrando um algoz que só piora sua situação.

Conselhos, independente de bons ou maus, precisam ser refletidos para demonstrar o mínimo de respeito por aqueles que nos procuraram para conversar sobre determinada situação. Eu nunca vou ter a resposta na hora, eu preciso ouvir, mas, além disso eu preciso sentir, preciso compreender. Por tudo isso, o único conselho que eu acredito e a única prova real de amizade para mim é quando encontro um olhar de amparo, um ouvido que ouça, braços que confortem e ombros que apóiem. Não quero respostas sobre como agir, nem como viver, não quero me sentir sozinha, quero me sentir amada independente das falhas e limitações. Acredito que quando sentimos isso verdadeiramente, o silêncio vale mais do que mil palavras descompromissadas.
Nota: O nome da música do Nando Reis,
da qual me referi no texto é Minha Gratidão é uma Pessoa.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Romantismo, sempre ele!!!

[Inédito]

Por Anacris Maia

Nove de cada dez mulheres que eu conheço reclamam da falta de romantismo de seus namorados, maridos ou rolos. Antes que as precipitadas, emancipadas, feministas, modernosas e afins, leiam romantismo com a visão ingênua de príncipe encantado e comece seu discurso pró liberação feminina eu explico: falta de romantismo aqui tem mais a ver com cumplicidade, zelo, respeito, atenção e parceria do que com declarações de amor fantásticas do tipo avião espalhando pétalas de rosas na nossa casa, puxando uma faixa com os dizeres: “Fulana, EU TE AMO!!!”

E eu confesso que faço parte desse grupo nove entre dez. Por experiência e por observação, tenho identificado que de fato anda faltando um pouco de finesse para os homens. Não sei se somos nós que nos emancipamos demais e agora eles acham que estão lidando com uma réplica mais bem feita que o original de seus amigos ou se o fato de não sermos mais mocinhas tão delicadas e ingênuas os façam pensar que não gostamos mais de certos cuidados e mimos.

O que os homens ainda não compreenderam é que independente da força que expressamos e da autonomia que adquirimos continuamos a buscar um colo no final do dia para nos aconchegarmos depois de um dia exaustivo de trabalho. Outra coisa que eles ainda não perceberam é que numa sociedade como a nossa onde todos são iguais e somos tratados como seres pasteurizados, esperamos de pelo menos quem a gente ama um pouco da sensação de ser única e especial.

Outra coisa que nos cansa é a falta do “olhar de novidade” que vocês perdem quanto mais tempo ficam conosco. Se antes despertávamos a curiosidade e instigávamos os sentidos, depois de alguns anos de relacionamento vocês nos olham como se já tivessem nos descoberto. Como se a pessoa que vocês conheceram anos atrás é exatamente a mesma de agora! Essa presunção masculina de nos determinar faz com que muitos homens, fixados no momento em que nos conheceram, não consigam perceber as mudanças e a mulher que constantemente nos tornamos.

Quer ver outra reclamação comum? Descuido. Pois é, todo homem acha que mulher só se conquista uma vez, ou seja, quando está em início de namoro. Já perceberam que homem em início de namoro é perfeito? Manda flores, te torpedeia de uma em uma hora, liga para dizer que está com saudades, te convida para ir ao cinema numa segunda-feira só porque não agüenta esperar até o final de semana para te ver, enfim, é uma maravilha. Esse é o sonho também de dez de cada dez mulheres.

Só que tempo vai, tempo vem, chega uma hora que ficar fazendo tudo isso cansa. E então se antes eles nos sufocavam, agora deixam a gente livre como papel no vento... Ah, que saudades do início de namoro! Outro conselho comum é “início de namoro é ótimo! Curta bastante!” Mas, o problema é justamente esse: a gente curte tanto, que depois fica com saudades...

É óbvio que os relacionamentos mudam com o tempo e é ótimo que isso aconteça, afinal, mostra que o casal está amadurecendo junto. Porém, por que normalmente essa mudança significa diminuição de afeto e romantismo? Afinal, supõe-se que um casal que se mantém junto depois de tanto tempo seja por amor e não por acomodação ou medo de solidão.

Uma relação precisa sim, de uma dose de romantismo, de sedução. Sabemos que não será assim todos os dias e em todos os momentos, mas, acredito que vale a pena reservar alguns dias do ano para celebrar o amor, para aquecer a relação. Se acomodar é aceitar menos do que se merece e se chegou a esse ponto, acho que é o momento de partir para outra, arranjar outros amores. E isso, diferente do que muitos pensam, não é ser volátil é tentar ser feliz.

Acredito que quando há amor, paixão e entrega gostamos de conquistar o outro no dia-a-dia, com detalhes: uma comidinha gostosa preparada por nós mesmas, um bilhetinho carinhoso pregado na geladeira desejando um excelente dia, colocar um Sonho de Valsa na pasta do namorado, enfim, qualquer gentileza que mostre ao outro o quanto ele é especial.

Quando nos esquecemos desses detalhes e pensamos que o outro tem bola de cristal ou alguma capacidade premonitória de adivinhar o quanto é amado estamos perdendo um tempo precioso de declarar aquilo que sentimos e infelizmente a maioria das relações acabam pelo infindável e tedioso silêncio dos dias comuns do que pelas acaloradas brigas que terminam em tórridas noites de amor.
Créditos das Fotografias
Foto 1: O beijo do Hotel de Ville, Paris, 1950, Robert Doisneau
Foto 2: O beijo - Boulevard Diderot, , Paris, 1969, Henri Cartier-Bresson
Foto 3: O beijo em Times Square, Nova Iorque, 1945, Alfred Eisenstaedt

domingo, 1 de agosto de 2010

Mulheres são chatas, homens são teimosos

Publicado em 28.03.2009
Por Anacris Maia

Sejamos sinceras! Vamos parar de bancar a vítima, a pobre coitada, a incompreendida e assumir de uma vez por todas o posto que nos cabe: somos chatas. Muito chatas. Exigimos dedicação 24 horas/dia, queremos ser paparicadas, mimadas, endeusadas. Ainda se não bastasse temos memória de elefante, o que pode ser considerado uma dádiva ou maldição, depende da perspectiva de cada um. E o interessante nisso tudo é que além da memória gigantesca, ela também é seletiva: esquecemos com facilidade as demonstrações de afeto se por alguma razão, em algum dia ou momento da relação, o namorado (ou qualquer outra definição) falou algo que nos incomodou, por exemplo, “gosto de loiras”. E você é morena! Obviamente que este é um exemplo simples, cada leitora com sua própria vivência se remeterá a um outro exemplo semelhante.

Independente de preferências – e todas nós temos as nossas – o fato é que basta uma única palavrinha mal colocada e interpretada para virar um fantasma rondando a relação. E esse fantasma será chamado todas as vezes que nos sentirmos ameaçadas, pouco valorizadas e afins. Um segredinho: no fundo, fazemos isso para fazê-los sentirem culpados. E a chatice continua: somos repetitivas e também provocativas. Adoramos insinuar situações em que vocês sentirão ciúmes ou dizer que vocês não são os únicos a perceberem nosso charme. Se ficarem com raiva, nosso objetivo finalmente foi alcançado. É como a música da Adriana Calcanhoto “é pra ver se você olha pra mim...” Pois é, quebramos xícaras, escrevemos nos muros, fazemos qualquer coisa para chamar um pouco à atenção de vocês.


Já reconhecemos que somos chatas e assumimos nossa parcela de culpa nas brigas. Assumimos também nossa carência, gostamos de exclusividade, de nos sentirmos única, amada, especial. Os homens, até tentam – alguns mais que outros – corresponder a tanta expectativa, mas, somos insaciáveis e também um pouco míopes. E como normalmente as demonstrações de afeto masculinas são completamente ou quase sempre diferentes do que esperávamos, não percebemos o esforço que os pobrezinhos, vez ou outra, fazem por nós.

Mas, chega de entregar nosso ouro. Já falei muito mal de nós mesmas e nós não somos as vilãs da história. Se pecamos na relação por chatice, os homens pecam por teimosia, aliás, sem ofensas – afinal, amamos vocês – o ditado “teimoso como uma mula” lhes cai muito bem. Quando vocês empacam, empacam mesmo! O “não” é NÃO mesmo, com letras maiúsculas e não adianta a gente fazer beicinho, chantagiar, chorar, terminar... Vocês são inatingíveis, inacessíveis.

Está feito então o maior ruído na comunicação homem – mulher. É a luta entre o argumento lógico sobre algo completamente ilógico! Vocês querem que a gente entenda o NÃO como uma simples necessidade de espaço e que não tem nada a ver conosco. Porém, algumas vezes, entendemos como rejeição. O problema surge quando de fato precisamos da companhia de vocês e vocês inventam de ficar sozinhos. Puxa, se a nossa pseudo-manha é incompreensível para vocês, a falta de sensibilidade e tato de vocês é incompreensível para nós. E ficamos nesse cabo de guerra medindo sabe-se lá o quê, com ambos sofrendo um desgaste que não vai levar a lugar algum.

Se de um lado nós somos mimadas e carentes, os homens por outro, querem ter a última palavra. Em suma, a birra existe em ambos os lados. E o que é pior, se estabelece uma competição onde ganha aquele que não cede. Só que relacionamento não é prova de resistência (e não estou falando em BBB). Ninguém tem nada a perder cedendo um pouco. O que acontece é que infelizmente estamos tão envolvidos em nós mesmos – homens e mulheres – que não conseguimos olhar o outro com o mesmo olhar que ele está tendo de si mesmo.

Por que é tão difícil acreditar que o fato deles não quererem nos ver seja mesmo apenas vontade de ficar um pouco sozinho? Por que temos que ficar girando em torno de pensamentos do tipo: “ele não me quer”, “a relação está perdendo a graça”, “ele deve ter outra mulher ou conhecido alguém”. Como disse Freud, “às vezes, um charuto é apenas um charuto”. Às vezes, vontade de ficar sozinho é só vontade de ficar sozinho.

E os homens por sua vez, por que são tão turrões? O que custa ceder um pouco e mimar a namorada? Tudo bem que sob o seu ponto de vista, a companheira é que está “alucinando”, exagerando... Mas, ela é sua namorada. Independente de quem tem razão ou não, não passa pela cabeça de vocês que todo esse “drama” pode ser uma reação? Um sinal? E vocês têm uma capacidade de fazer exatamente o contrário daquilo que a gente precisa... Acreditem, o que vocês pensam ser manha é na verdade pura necessidade de companhia, de um colo, de alguém em quem confiar.

Diante desse impasse todo, falar em equilíbrio é sugerir o impossível. Aliás, a proposta nem é essa. Hoje se superestima o equilíbrio, porém, relações equilibradas impossibilitam o crescimento da relação e dos dois. O conflito é necessário para que conheçamos o outro e a gente mesmo. Acredito que num cenário como este o melhor mesmo é a paciência e ter também a consciência de que o outro “está” assim e que ele não “é” assim. Outra sugestão é se lembrar da pessoa por quem você se apaixonou; voltar-se para aquilo que o outro tem e que te conquistou. As diferenças existem, as visões de mundo são peculiares, então, por que tentar igualar ou tiranizar? A melhor prova de amor que podemos dar ao outro é amá-lo do jeito que ele é. E no fundo não é na verdade tudo o que todo mundo quer?


“Desejamos ser compreendidos, porque desejamos ser amados,
e desejamos ser amados, porque amamos”. (Marcel Proust)

domingo, 18 de julho de 2010

Pelo direito de ser chata

Postado em 17.03.2009
Por Anacris Maia

Dias desses estava pensando se estou ficando mais chata que o habitual ou se o famoso “semancol” anda perdendo o efeito para 90% da população. Depois de verificar que não estava na TPM e nem sofrendo de irritabilidade crônica, conclui que, o que de fato tem me deixando impaciente e intensificado minha chatice – leia-se chatice como sendo respeito, educação, bom senso – é na verdade a falta desse remedinho responsável por controlar o senso das pessoas.

Tem gente que simplesmente não entende linguagem corporal, afinal, ignora cara feia e olhares de reprovação e outras que não entendem leitura labial, já que nem falando no idioma pátrio a pessoa compreende que não estamos gostando de determinada brincadeira ou simplesmente que tal colocação é, para dizer no mínimo, inadequada. Em suma: ou a pessoa é tapada demais ou leva a vida tão na valsa que é incapaz de perceber que está invadindo o espaço do outro.

Só para citar alguns exemplos: quem ao entrar no ônibus não identificou um som estranho, mais parecido com uma colméia de abelhas, vindo de um celular cujo dono não tinha o mínimo senso de coletividade e obrigava todo mundo a ouvir música, muitas de péssimo gosto, durante todo o percurso? Não quero discutir gosto, afinal, o que é “ouvivel” para mim pode não ser para o outro. Mas o que me incomoda é por que raios esse dito cujo não coloca a droga de fone de ouvido e deixa de torturar os que estão a sua volta? Depois disso, EU SOU CHATA!

Outra coisa interessante é quando você está sentado no ônibus, normalmente em intermunicipais (tem ou não tem mais hífen?), e uma linda criancinha acompanhada de seus pais, senta no banco atrás de você e resolve fazer alongamento. Aí é um festival de chutes nos rins, pulmões, coluna... Seria uma sessão de Do-In se os pontos em questão não fossem mais espancados que pressionados. E os pais, simplesmente não percebem ou fazem que não percebem, que o simples mortal sentado à frente está tomando uma surra de pontapé.

E nessa hora, você olha pra trás, dá um sorrisinho amarelo tipo: “pivete, pára. Tem gente sentada aqui”, dá uma olhada para os pais para ver se eles notam sua existência e fazem o bendito satânico parar de te atacar e em última instância recorre a sua educação e gentileza para não ofender e diz: “por favor, você podia fazer seu filho parar de bater no banco?” Agora pergunto: isso tudo é necessário? Será que os pais não estão vendo? Pois é, eu continuo sendo A CHATA.

E gente inconveniente? Nossa, parece que o que mais tem são tipos assim. Quem já não presenciou ou foi a própria vítima de comentários maldosos? Mais um exemplo: você sabe que engordou um pouquinho, estava meio ansiosa e andou abusando no chocolate ou no outro extremo, perdeu alguns quilinhos valiosos que fazem muita diferença em quem já é magra, porque estava trabalhando demais. Você acorda, coloca uma roupa bem bonita, se maquia, ajeita o cabelo e tenta fazer com que esses detalhes não abalem sua auto-estima. Eis que então, você pisa no trabalho e escuta a fatídica frase: “Nossa, como você engordou!” ou “Nossa, você está tão magrinha!”. Pronto, todo o seu trabalho pela manhã foi por água abaixo por conta de um (a) colega que não tomou sua dose diária de “semancol”.

Em jornalismo se usa um termo chamado “legenda para cegos”, comum em fotografias. É aquela legenda que está embaixo da foto e que deveria contextualizar ou trazer uma informação extra àquela que a fotografia já está retratando, porém, o que normalmente ocorre é uma descrição da fotografia, ou seja, eu já estou vendo, então, porque diabos preciso da legenda? Partindo desse argumento defendo minha suposta chatice. Esse comentário em relação à aparência era mesmo necessário? Pôxa, todo mundo tem espelho em casa! Todo mundo sabe que engordou ou emagreceu um pouco, basta tentar vestir aquela calça jeans que ficava tão bem e agora não fecha ou que te deixava mais gostosa e agora está frouxa. Então eu repito: esse comentário era mesmo necessário? É o que eu sempre digo, se você não tem nada de útil ou agradável para falar, cale-se. Na maioria dos casos é um bem que você faz para o outro.

E gente que conta piada preconceituosa ou ofensiva e quer que eu ache graça? Desculpe-me, mas eu não acho a menor graça e eu não vou rir. Sim, sou MUITO CHATA. E pretendo continuar chata por um bom tempo. SOU CHATA com gente que rabisca livro de biblioteca pública. O livro não é seu, as idéias destacadas por quem o rabiscou não me interessam, sem contar mais uma vez com o desrespeito de algo que pertence à todos.

O filósofo Rousseau já dizia em seu Contrato Social que abrimos mão da liberdade individual e fazemos um pacto social e é a partir dele que a convivência se torna possível. Acontece que as pessoas estão simplesmente rompendo esses acordos de boa convivência e o que é pior, exigindo serem respeitadas de uma forma às avessas. Eu poderia simplesmente me acostumar com as situações citadas, mas, ao me acostumar eu estaria compactuando para extinguir de vez a gentileza e o respeito entre as pessoas.

“GENTILEZA GERA GENTILEZA”, já dizia o Profeta. Num mundo onde o respeito ao público e coletivo se esfacela, não resta mais nada além da imposição individual de uns sobre os outros. Já imaginou como seria se todos dentro do ônibus quisessem ouvir sua música sem fone de ouvido? Ninguém ouviria nada, cada um iria colocar no volume máximo possível, tornando o local insuportável. Ou seja, todo o processo de domesticação do animal humano e o contrato social de Rousseau ruiriam. Portanto, se isso é ser chata assumo plenamente minha chatice. Não compactuo com esse tipo de liberdade que inibe, obriga, humilha... Aliás, isso para mim não é liberdade é falta de respeito mesmo e assim sendo, não faço a mínima questão de ser legal.

Bem que o SUS podia fornecer nos Postos de Saúde, iria melhorar e muito a convivência que já anda tão comprometida.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Odisséia hospitalar 2

[Inédito]

Por Anacris Maia

Há um mês me vejo prostrada, debilitada com um tosse crônica persistente e resistente há mais de 5 tipos de xarope: de expectorantes a antialérgicos, alopáticos a homeopáticos. Meu corpo foi perfurado para receber analgésicos e hidrocorticóides. Há semanas venho mandando para dentro antibióticos, antiinflamatórios, anti-histamínico. Nada, absolutamente nada tem dado resultado.

Nietzsche diria que o que não te mata, te fortalece. Alheia a serenidade nietzscheana eu responderia que as únicas coisas fortes são os músculos da minha barriga e costas que forçados a contrair e expelir com toda a força aquilo que no meu corpo tem feito mal estão ficando tão tonificados que darão inveja em muita rata de academia.

Domingo foi mais um dia de hospital. Dessa vez, o Ricardo me fez companhia no chá de cadeira habitual já retratado no texto Odisséia Hospitalar. Agora, vou me ater a narrar o que vi e ouvi nos corredores do Pronto Socorro de Pindamonhangaba, interior de São Paulo, enquanto eu esperava a boa vontade dos atendentes em tirar uma radiografia do meu pulmão. Sozinha – eles não deixam entrar acompanhante – o que me restava era puxar conversa e conhecer um pouco a situação daqueles que assim como eu, estavam impotentes. Vontade de fazer um escarcéu não falta – e até iniciamos um dessa vez, com direito a chamar o supervisor daquela joça, mas, para variar, domingo o/a dito (a) cujo (a) não trabalha.

Vamos a primeira história: um senhor na casa dos 60 anos estava desde as nove da manhã dentro daquela zona médica. Já tinha tomado soro, foi medicado e também tirou algumas radiografias. Ele retorna ao raio X e diz que ficou faltando algumas radiografias, agora pasmem: o radiologista simplesmente não entende a letra do médico e consequentemente o que ele havia pedido. Começa então a palhaçada, nenhum outro médico consegue entender o que o colega havia prescrito, o fulano havia saído de seu plantão e ninguém conseguia localizá-lo. Caramba, até a veterinária do cachorro do meu namorado atende o celular num domingo à tarde!!! Por fim, depois de quase uma hora o senhor finalmente entra na sala de radiografia e suponho, consegue finalmente fazer o que é preciso.

A segunda história é de uma mãe com um bebê de uns três anos que também está desde a manhã e que por um erro do radiologista volta a sala de raio X para tirar quatro radiografias que ficaram para trás. Eu pergunto: “Por que o médico não pediu todas de uma vez?” A mãe responde: “Ele pediu, mas, o burro (isso mesmo ipsis litteris) do cara não entendeu e tirou uma só”. Bom, não culpo só a baixa escolaridade do radiologista, culpo também o pretenso intelectualismo do médico que precisa escrever com uma letra horrorosa para provar sua superioridade frente a relés mortais que terminam seus cursos superiores em média em 5 anos. Dá o que pensar, afinal é o segundo caso no dia em que o radiologista não consegue entender o que está sendo pedido.

Se a radiografia está caótica o cenário na soroterapia não é diferente. Pessoas aguardam do lado de fora, muitas visivelmente debilitadas. No celular uma senhora diz que vai embora, que não vai esperar sua companhia tomar o soro. Do outro lado, uma senhora conversa comigo e diz que não consegue mais ficar ali daquela forma e questiona a enfermeira, que com cara de b... responde que ela precisa aguardar. Enquanto estou sentada, vejo uma senhora numa cadeira de rodas parada em frente ao banheiro com sua acompanhante. Percebo que ela não precisa mais do banheiro, pois acabou de se urinar ali mesmo, tardiamente chega uma dita cuja com um avental escrito “apoio ao paciente”. Ela não precisa mais de ajuda.

Se a intenção de um hospital público é te fazer sentir um lixo, o ser mais baixo da espécie humana, um miserável digno de pena e de morte sem nenhuma morfina para diminuir a dor, então, ele consegue. Que lugar é esse que deveria ter como princípio essencial o bom acolhimento de pessoas que estão vulneráveis, cheias de dor e sofrimento? Ninguém precisa ser mais humilhado, pois ao entrarmos num hospital já sentimos nossa pequenez diante de um corpo que não responde mais da forma como gostaríamos, a doença a todo momento mostra nossa finitude e prostra nossas ações.

Onde está o humanismo na medicina? Ou será que vocês “doutores” aprendem tão bem a dissecar e cortar que tornam-se açougueiros, confundindo todos nós “pacientes” com pedaços de carne sem vida, dignidade ou sentimentos? Que espécie de médicos são esses que te atendem com uma cara de merda, que nem te cumprimentam, que nem sequer esboçam um sorriso ou mínima falsa preocupação com o seu problema? O que as faculdades de medicina estão formando?

Concordo que certa frieza e distanciamento são necessários para se ter um bom diagnóstico, mas, o que vejo não é ciência e sim indiferença, completa falta de respeito. Indiferença com quem sofre, com que procura ajuda porque acredita que está recorrendo a alguém que de fato pode ajudá-la. Desculpe se aqueles que me lêem vem um fundo dramático, mas, estou indignada, revoltada diante da atuação desses pseudo-médicos.

Lidar com o ser humano exige cuidado, esforço homérico para entender o que se passa dentro de cada um, é um trabalho exaustivo e que muito provável não seja a vocação da maioria das pessoas preocupadas em encher seus bolsos e a vida fácil. Escolher por vocação a medicina, o magistério, a psicologia, a assistência social entre outras que lidam diretamente com pessoas, implica reconhecer o desafio constante que encontrará a cada dia, ninguém falou que seria fácil e as perdas com certeza serão maiores que os ganhos, mas, para se dormir com a consciência tranqüila é preciso saber que naquele momento diante de todas as limitações foi feito todo o possível, ainda que todo o possível seja apenas um tratamento mais respeitoso.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Odisséia hospitalar

[Inédito]

Por Anacris Maia

Depois de mais de uma semana acamada, sem voz, passando noites em claro com uma tosse seca e irritadiça somada a uma forte dor de cabeça que começou no sábado eu finalmente venço os apelos do corpo e sucumbo diante da possibilidade de me consultar com um médico do Pronto Socorro (P.S) Municipal. Quem me conhece sabe que eu resisto bravamente antes de recorrer ao P.S. Tenho meus motivos e minha consulta de ontem só veio corroborar com minhas teorias.

Tentando fazer bom uso do jornalismo literário buscarei levar meus escassos, porém, queridos leitores a experiência que presenciei nessa fatídica segunda-feira. Chego ao P.S por volta de 20h45 e meu desânimo torna-se visível quando percebo que está mais lotado que o esperado. Se considerarmos os finais de semana como os dias mais propícios para um tumulto na emergência, era para ontem parecer no mínimo mais tranqüilo...

Por um segundo, penso em dar meia volta e me aconchegar no cobertor quentinho da minha cama, até que uma pontada na cabeça me lembra da quantidade de analgésicos que eu já tomei e que não fizeram efeito, logo, me resigno esperando pacientemente uma dose mais cavalar para aliviar o mal estar. Chego ao balcão, preencho a ficha com uma atendente com cara de cansada e vou me sentar na sala de espera, aguardar.

Na tevê, o Jornal Nacional noticia os últimos lances da Copa do Mundo, cansada de tudo aquilo e precavida em situações de espera, retomo a leitura de O Existencialismo é um Humanismo, do Sartre. De repente, minha leitura é interrompida pelo “tãnan” do aparelho de senhas. Três números são chamados, ainda não é o meu, mas, já fico mais animada “apesar de lotado, está indo rápido”, penso. Pois é, penso, logo me precipito... Não sei se a máquina das senhas quebrou, algum médico enfartou ou alguma emergência entrou por algum outro portão, o fato é que por mais de uma hora ninguém mais naquela sala ouviu o “tãnan” tão aguardado.

Já passa das dez da noite, minha leitura já rendeu quase um artigo, a Tela Quente já começou, além do filme ser ruim, a tevê está sem som, então me vejo numa angústia existencial e escolho: “se até as dez e meia eu não for atendida, vou embora daqui”. Olho pro relógio, pras pessoas em volta – cada qual mais injuriado com a demora – limpo meus óculos, jogo um joguinho besta no meu celular, reclamo para a mulher do lado que também está incomodada com a demora até que “tãnan”, “tãnan”, “tãnan”, finalmente, às 22h25 sou chamada a passar por aquela porta que separa aqueles que aguardam atendimento daqueles que estão recebendo tratamento...

Volto a me sentar em umas poltroninhas enquanto uma mulher é chamada ao consultório. Percebo que a porta nem é fechada, fico grilada: “que tipo de consulta é essa?” Em menos de cinco minutos a mulher saí com uma receita e prontuário e se encaminha mais para o fundo do P.S, onde estão salas de ortopedia, raio x, soro, inalação e afins. Meus pensamentos são cortados quando ouço meu nome – sou eu agora a entrar naquela sala.

“Boa noite”, educadamente cumprimento o médico de meia idade, cabelo desgrenhado e baixinho por trás da mesa. Ele ignora minha simpatia e antes que eu me sente, apressadamente pergunta o que eu tenho. Aí sou eu que o ignoro e me encaminho para a cadeira, só depois de acomodada é que começo a falar das minhas mazelas físicas. Conto tudo o que já contei para vocês no início desse texto e acrescento, em relação a minha dor no rosto, que talvez seja sinusite. Ele imediatamente acata meu diagnóstico e começa a escrever no prontuário, aliás, em nenhum momento ele olhou sequer para a minha cara.

“Sua tosse é conseqüência da sinusite, vou te passar um antibiótico e um xarope. Agora você vai tomar uma injeção para a dor e fazer uma inalação”. Pronto?! Só isso? Quer dizer que eu fiquei mais de uma hora dentro daquele lugar para eu mesma me diagnosticar? Eu não sou médica! Sou fã de séries médicas, procuro alguma coisa na internet e só. Mas, o fato de não ser médica não significa que sou mal informada, sei que dor de cabeça indica inúmeras doenças, desde um aneurisma até sim, uma simples sinusite. “Calma aí, você não vai tirar minha pressão? Auscultar meu coração? Pedir um raio x do meu pulmão?”, pois é, penso, logo não falo. Outro problema do pensamento: se pensamos, não agimos.

Inconformada, saio da sala e vou em busca da saleta das inalações pensando: “caramba, o cara me diagnosticou sem nenhum exame, sem nem olhar pra minha cara!” Isso não é pior que auto-medicação? Afinal, qualquer um sabe que para diagnosticar é preciso examinar. Bom, supero isso rapidamente porque neste momento estou parada num corredor sem ninguém para me dar informação sobre onde eu faço a bendita inalação. Pergunto para uma enfermeira que gentilmente me indica o local. É no fim do corredor.

Não pense que o cenário é de Grey´s Anatomy ou E.R, enquanto caminho vejo pessoas tomando soro, gente quebrada esperando sala para ser atendida, enfim, exposição e tumulto total. Mais uns quinze minutos, sou atendida pela enfermeira que me aplica uma injeção de dipirona na bunda. Eu tenho pressão baixa, se a pseudo-consulta tivesse sido completa, o médico teria medido minha pressão e saberia que não poderia me indicar tal medicamento. A injeção queimou tanto que achei que ia sair do P.S arrastando a perna direita, meu joelho ficou mole, estava sem força, minha sorte foi que me arrastei a poltrona da inalação onde literalmente desmoronei.

Terminada minha inalação encerrou-se também minha odisséia no P.S. Passei pelo consultório e ele atendia outros pacientes, mesmo ritmo, mesmo descompromisso. Saio de lá, pensando que deveria ter exigido exames, exigido uma consulta decente ainda que isso me fizesse parecer petulante. Sai de lá pensando que muitas vezes eu critico, porém, num momento como esse acabei compactuando, não tive voz, não agi quando a situação pedia uma postura mais firme e menos submissa.
Por pensar que estava sendo atendida por um profissional, eu o respeitei e não questionei seus métodos e sua consulta. Depois é que entendi que aquilo não era respeito, era apatia, passividade. Eu aceitei ser tratada daquela forma, assim como todos os outros pacientes. Por trás da sua mesa e do seu dr. eu e os outros o tornamos inquestionável. Sendo assim, o problema não é ele e sim eu que me calei quando deveria ter falado, eu que ainda carrego costumes arraigados que por mais que meu pensamento e minha lógica os identifique como mera domesticação do meu espírito, ainda estou aprisionada a eles mesmo que buscando meios de me libertar.

domingo, 20 de junho de 2010

As evidências não tão evidentes do amor

Postado em: 06.02.2009
Por Anacris Maia

Você seria capaz de afirmar que conhece muito bem alguém, mais do que a própria pessoa? E quantas vezes já reconheceu que preferiu fechar os olhos em troca de um pouco de afeto disfarçado de felicidade? Falar do humano é falar do imprevisível e acreditar no improvável. Essas são apenas algumas questões que o filme Banquete do Amor me fez levantar.

O filme se desenrola nessas duas questões centrais: o enxergar o outro e o cegar-se para o outro. A diferença é sutil, porém profunda. Há algum tempo postei nesse blog um texto em que defendia - e continuo defendendo – a idéia de que o Amor Novo tem a vantagem de instigar a curiosidade e carrega ar de novidade. Isso dura alguns meses, para alguns sortudos anos, mas, o fato é que o cotidiano logo transforma o que tinha tudo para ser uma love story em romance comum e tedioso.

A mesmice do relacionamento me dá a deixa para trabalhar a primeira questão. A relação não se torna enfadonha por falta de romance ou carinho – aliás, o filme retrata muito bem isso – mas sim, a pretensão que temos ao acreditar que já conhecemos o outro e envolvidos em nossa arrogância, acreditamos piamente que tudo já foi revelado, ou seja, julgamos não precisar mais conhecer o outro. Deixamos de perceber o outro, suas palavras não causam mais o mesmo impacto ou empolgação e deixamos de “ouvir” aquilo que o outro não diz, mas insinua. E quando o fim chega, muitas vezes de forma inesperada, nos sentimos perdidos e sem entender o porquê desse desfecho. Afinal, estávamos indo tão bem: éramos românticos o suficiente, carinhosos o suficiente, honestos o suficiente... Mas, a gente já está bem grandinho para saber que isso não é suficiente.

Acredito que o que nos faz andar nas nuvens no início de um romance não é de responsabilidade de toda a endorfina que nosso corpo libera e que pré-determina uma validade para a paixão. Essa sensação vem também do fato de nos tornarmos significativos para o outro, ouvidos, desvelados. É isso que faz com que nos sintamos únicos. Perdemos o outro no momento em que não nos permitimos mais conhecê-lo, quando o enquadramos tão bem nas medidas que não lhe permitimos outras formas. E nós temos tantas outras formas... Somos tão paradoxais, tão duais, tão surpreendentes e tão diversos. Poeticamente dizendo há inúmeros ‘eus’ morando dentro de mim. Porquê será então que insistimos em trancar esses inúmeros “personagens” que habitam em nossos companheiros (as) num quarto escuro e jogar a chave fora? E será mesmo que esses outros “eus” ficam tão bem trancados que não os percebemos?

Frases do tipo “você sempre faz assim”, “eu te conheço” e “não esperava isso de você” são odiosas por representarem, pelo menos para mim, o romance engessado. Ninguém é tão simples assim a ponto de ser reduzido e totalmente revelado em alguns anos de convivência. Se eu ainda me surpreendo comigo e me descubro a cada dia não posso aceitar que alguém me defina. É um processo contínuo que provavelmente durará até o fim da vida, portanto, se não quer ser surpreendido, evite rótulos e definições. Isso faz com que qualquer namoro (casamento ou rolo) perca a graça.

Se Banquete do Amor fala de sensibilidade e percepção do outro, o filme vai cuidar também da nossa cegueira, daquilo que recusamos enxergar, dos sinais que deixamos para trás e relevamos para termos um pouco de felicidade. Claro que não estou declarando aqui total intolerância àquilo que for diferente no parceiro. Estou falando do quanto nos mutilamos e das migalhas que aceitamos para ficarmos na companhia de alguém. No fundo, nós todas sabemos quando estamos numa relação em que os interesses são completamente diferentes e que desfecho terá isso. Verdade seja dita, o outro é o que é, aceitemos isso ou não.

E exemplos para esse tipo de cegueira não faltam: ficar com um homem galinha acreditando que um dia ele será diferente, aceitar ser o “tapa-buraco” ou “segunda opção”, como quiser chamar, reconhecendo que o cara não é lá muito apaixonado por você e talvez até pense em outra, acreditar-se poderosa suficiente para transformar um solteirão convicto em marido apaixonado ou na conversa fiada de homem casado que diz para a amante que vai se divorciar, mas, já a enrola há anos. Claro que não somos a fortaleza que gostaríamos de ser: temos carências, gostamos de afeto e companhia, faz parte do feminino sermos mais amorosas. O problema surge quando nossa perda de amor próprio fica tão evidente quanto às evidências de um romance fracassado, mas, que ainda insistimos. E insistimos por motivos diversos: insegurança, medo, gratidão, amizade, enfim. Mas, seja qual for o motivo que impede o rompimento, este deve ser assumido, nada de vitimizações. Sabemos o que escolhemos e que fim terá.

Acredito que o sofrimento não vem pelo fracasso de mais uma vez ter falhado numa relação, mas sim do fato de não conseguirmos transformar o romance fadado ao fracasso no conto de fadas que a gente sonhou. Em suma, fechamos os olhos ou temos um olhar de conveniência onde só enxergamos aquilo que queremos ver. São evidências não tão evidentes e que na maioria das vezes optamos por pagar para ver – somos insistentes e persistentes – só que a gente não imaginava que no fim a conta era tão alta.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Sex and the City 2 (Torcendo pelo Terceiro!!!)

Por: Anacris Maia


Sábado à tarde, dia de sol agradável somado a um friozinho na medida. Dia perfeito para colocar uma roupa bem charmosa – afinal, a ocasião merece – e ir ao cinema arrastando o namorado para assistir Sex and the City 2. Eu, fã e órfã da série contava os dias, esperava ansiosamente a estréia, que foi na sexta, dia 28/05, para matar saudade e rir com as quatro mulheres mais fabulosas do cinema.
Como as minhas expectativas estavam pra lá de altas, talvez o texto soe mais crítico que fanático, mas, essa não é essa minha intenção. Este texto é a primeira impressão de uma fã apaixonada, que vê e revê a série sempre que pode, assim sendo, talvez cega pela paixão e pela expectativa, eu exagere um pouco na chatice, mas, não significa que o filme é ruim – ele tem algumas falhas, é verdade – apenas que foi diferente do que eu estava aguardando.

Se no primeiro filme Miranda (Cynthia Nixon) e Charlotte (Kristin Davis) estavam se adaptando a nova vida de casada e enfrentando algumas realidades, Samantha (Kim Cattrall) estava dividida entre sua vida antiga, onde cada noite era possibilidade de uma boa transa, e uma relação estável, enquanto Carrie (Sarah Jéssica Parker) preparava para o tão sonhado dia do casamento com Big e o desfecho da tumultuada relação.

Neste segundo filme, as angústias agora giram em torno da confortável, porém, tediosa vida de casada, da estressante atividade de “mãe” e da busca por manter a juventude. Tudo abordado com muito bom humor, sacadas incríveis, conversas inteligentes com um toque de sinceridade e cinismo. Há cenas antológicas que se tornarão inesquecíveis para os fãs da série. Samantha sem dúvida é a estrela do filme, interpretação fantástica e cenas memoráveis como o desabafo no meio de uma feira lotada de conservadores religiosos no Oriente Médio que a olhavam com desaprovação por ter na bolsa inúmeras camisinhas: “é, eu faço sexoooo”. Simplesmente demais.

Bom, mas não estou aqui para cortar o barato de ninguém, portanto, encerro aqui os detalhes do filme para me ater a assuntos um pouco mais técnicos. A idéia do filme é muito bacana e de fácil identificação com os personagens, porém, o roteiro conseguiu perder esse foco e mostrou-se um pouco fraco e desconexo perdendo a oportunidade de explorar melhor as histórias das personagens. Apresentam-se os dilemas e a gente fica torcendo para que tudo dê certo no final – afinal, estamos falando de filmes, Hollywood – e o que acontece é uma explicaçãozinha muito da clichê, pouco densa e não condizente com Sex and the City.

Outra coisa que me desagradou: figurino. Mulherada, é público, notório e unânime que Sex and the City é glamour, moda, grifes, ostentação. É pra gente morrer de inveja, desejar todos os Dior, Chanel, Oscar De La Renta, Manolo e afins. Eu senti falta de um visual mais chique, mais Nova Iorque. Acompanhando algumas matérias que estavam circulando antes da estréia do filme, li que o figurino seria mesmo um pouco menos glamuroso devido à crise econômica que assolou o país. Até aí, tudo bem, mas, eu estou indo ao cinema para assistir um filme extremamente fashion e não um documentário cabeça sobre a história da economia americana.

Mas, uma coisa é certa, o filme vale o ingresso e no meu caso uma segunda vez, as críticas apontadas são apenas detalhes. Rever as aventuras e romances dessas quatro, somada a franqueza dos diálogos é garantia certa de diversão e leveza. O tema central do tédio nas relações estáveis que já perderam aquele fogo inicial, somado a luta pela sobrevivência e pela preservação da sanidade durante o exercício de ser mãe garantem não só boas risadas e discussões, mas, quebram também o discurso hipócrita e moralmente aceito.

No mais, só posso torcer para que Carrie Bradshaw continue com olhar perspicaz, compartilhando dilemas amorosos com tanta graça e humor, colaborando para que não nos sintamos sozinhas diante dos nossos próprios dilemas relacionais. Eu continuo na saudade, revivendo bons momentos com a série e aguardando ansiosamente o terceiro. Vida longa a Sex and the City.


Kim Cattrall está fantástica na pele de Samantha Jones.
Ela é a estrela do filme. Na foto, visual retrô, anos 80.