segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Teoria do desapego

Postado em: 28.09.2006



Por: Anacris Maia


Depois de um longo inverno, eis que uma idéia surge e cá estou escrevendo para o Produção de Calcinha que por um bom tempo não produziu absolutamente nada. Mas, não volto com as mãos vazias. Durante esse tempo pensei bastante e em muitas coisas e uma delas foi o relacionamento amor e amizade. Desenvolvi até uma teoria sobre o assunto. Porém, antes de discorrê-la nesse texto, preciso explicar o que me levou à sua criação. Não existe nenhum estudo aplicado e meus fundamentos se baseiam no conceito empírico de ciência. Em suma, nada comprovado. Só devaneios, mas, nem por isso infundados...

A amizade é capaz de durar a vida toda. Eu tenho amigos que já me separei por um tempo, mas, quando voltamos a nos encontrar parece que nos vimos ontem. Amigos que convivo diariamente e que não me canso de suas presenças constantes em minha vida.

Agora, com relacionamentos, não tenho bons exemplos (claro que não me baseio aqui apenas nas minhas experiências, mas também na de amigos!). Primeiro porque o excesso de expectativa e exigência sempre acaba estragando de alguma forma. E foi a partir daí que comecei a teoria do desapego.

Responda rápido: você alguma vez já ligou para seu amigo cobrando por não ter te ligado na noite anterior? Já se chateou e fez o maior drama porque ele saiu com outros amigos num final de semana (só para variar, afinal, vocês passam a maior parte do tempo juntos)? Eu nunca fiz. Acredito que você que lê esse texto também não.

Reparei que amizade dura porque é um relacionamento baseado em leveza, lealdade e principalmente liberdade (sem querer 3 Ls. Argh, esqueçam isso, parece regrinhas de livros de auto-ajuda). Amigos são pessoas que a gente escolhe (e que também nos escolhem). São aqueles que a gente tem mais afinidade para falar coisas fúteis e angústias pessoais. Há empatia, simpatia, confiança. Há a livre vontade de querer estar perto, ficar junto.

Partamos então para os relacionamentos. Vamos imaginar a mesma situação acima, só que desta vez com o namorado ou paquera. Se o coitado não liga uma noite, não manda um recadinho ou qualquer outra lembrança já é motivo suficiente para pensarmos que algo está errado (leia-se “algo errado” como sendo “algo errado em nós” – nunca pensamos que sua ausência pode ser porque ele chegou cansado do trabalho e ao chegar em casa simplesmente capotou). Sair com os amigos? Só com ofício enviado antecipadamente há alguns meses para então liberar o alvará. Tudo bem, assumo a dose de exagero, mas, esses dramas do cotidiano existem, seja em alguns mais ou menos evidentes.

Vocês já devem estar se perguntando “tá, e cadê a teoria?” Vamos lá. Ficar com os amigos e com o namorado é ótimo, mas, por que muitas vezes o namorado vai e só os amigos permanecem? Porque com amigos não há cobrança. Sem cobrança, não há obrigação. A grande sacada da liberdade é ter a certeza que de que as pessoas que realmente estão ao nosso lado são aquelas que realmente querem estar. Elas não estão porque você ligou cobrando uma ligação, um e-mail, um “oi”. Elas estão simplesmente porque a sua companhia basta.

Tudo que é uma obrigação é chato, ruim, forçado. E a situação fica insustentável depois de um tempo. Claro que ninguém também é obrigado a ficar com alguém que não dá o mínimo de atenção, (quem não dá assistência perde para a concorrência, lembram?),mas, aí é uma questão de tato e sensibilidade para diferenciar exigência de indiferença. Assunto para outro texto.

Sabe o que eu observei? Observei que os caras que eu menos dou atenção e que mal me lembro durante o dia são os que sempre se demonstram mais atenciosos. Só que aí, tem algo que preciso amadurecer mais. Será que “aquele” que eu dou mais atenção e povoa meus pensamentos no meio do dia também não é tão atencioso quanto àqueles que eu não ligo muito? E será também que por gostar demais, não exijo demais? Bom, toda teoria precisa ser trabalhada...

A verdade é que qualquer um quando apaixonado gosta de excesso de atenção e exclusividade. E sem equilíbrio, está pronta a receita para o relacionamento desandar. A gente perde a noção e o que antes era demonstração de afeto e cuidado passa a ser pegação no pé, grude e dependência. Ninguém gosta de ser controlado o tempo todo ou fazer algo por obrigação e deixar de fazer algo por obrigação. Eu assumo que levei muito tempo para perceber isso, mas, agora com a teoria do desapego uma nova forma de visão dos relacionamentos começa a me surgir. Foi observando amizades de anos na minha vida que entendi a relação homem + mulher + liberdade = dar certo.

A gente sempre escuta que ninguém é de ninguém, que os relacionamentos só vingam com liberdade, blá, blá, blá. Mas, a prática é outra. Até me inspiro, mas, estou longe de ser a garota perfeitinha das comédias românticas que eu tanto gosto. A teoria do desapego me mostrou que não quero ninguém forçado ao meu lado.

Quero pessoas como meus amigos, que me ligam porque sentem saudade. Que me chamam para sair porque querem a minha companhia. E eu faço o mesmo. Digo o quanto são importantes para mim porque eu quero e não porque me cobram que o digam. Saio com eles porque me fazem bem e me divirto. Se quero ficar sozinha em casa, me respeitam e entendem que o problema não é com eles e reconhecem que nem sempre há problema.


O que carrego para meu próximo relacionamento é isso. Liberdade. É muito mais gostoso e a gente se sente muito mais feliz quando sabe que estão ao nosso lado porque não querem estar em outro lugar. Percebi que posse não significa certeza. E amar é estar preso por vontade.
Adoro esse filme De Repente é Amor (A lot like love). Uma das razões é que em nenhum momento há cobrança, eles se encontram esporadicamente e o amor nasce naturalmente.

11 comentários:

Anônimo disse...

[Ronaldo] [ronaldocordeiro1@hotmail.com]
O querer independe do ser, que nos prende a uma carapaça sucetivel aos crivos da sociedade. O querer é atemporal, intenso, sem fronteiras ou forma. O querer é sincero, puro... Anacris, adorei os seus escritos

14/12/2006 23:44

Daniel Alabarce disse...

Antes de mais nada, seu blog tá muito legal! Gostei mesmo! Apesar de estar bem feminino (o que não constitui problema algum, rsrs), eu até pensei que iria ter alguma daquelas coisas romantiquinhas de vampiros, mas de você... não! Você é gente boa!kkkkk.

A respeito desta sua postagem sobre amizade e amor. putz, a cada frase e parágrafo eu apenas ria, concordando totalmente com cada palavra!!!

É por isso que agora eu não pretendo mais namorar por um bom tempo, quero só estas amizades que eu tenho, por enquanto...rsrs!

Amigos e amigas são mais saudáveis, exatamente por não sugarem nossas energias como um... VAMPIROOOO, hahahA (um vampiro do tipo drácula, tá?)¬¬

recentemente tive um relacionamento livre, e foi muito bom pra mim. nada de exigências, nada de chatice no telefone (e falar ao telefone, para mim, se constitui um grande problema no relacionamento...)
Eu tive esta experiência e aprendi muito. Aprendi isso que você escreveu, e muito bem escrito!

Ah, e eu também curto este filme (um dos poucos deste estilo que eu gosto-rsrsrs)

abração, cris, vou estar sempre por aqui!

Daniel Alabarce disse...

ah sim, já ia me esquecendo de te avisar que comentei seu comentário no meu blog, rsrsrs!

falow!

Palavra de confirmação: FOLDE

FOLDE-SE

Anacris Maia disse...

Dani... Adorei!!! Quanto a dizer que o Produção está bem feminino, valeu, a intenção é essa mesmo. Quero ele bem mulherzinha...rsrsrs.
Já os relacionamentos eu sou meio igual ao Celso Russomano, lembra? "Estando bom para ambas as partes". Eu acho que tem que ser assim mesmo, a gente tem que escolher o que é melhor pra gente e falar para o outro, se a pessoa não topar, bom, paciência, não é você que vai se anular ou ferir naquilo que acredita. Eu não tenho problema ou preconceito algum com relações abertas, desde que elas estejam plenamente divulgadas e os dois lados de acordo, porque vc sabe que tem muita gente que vive uma relação aberta velada, onde só um sabe, o outro, coitadinho, bobinho, acha que o tal ou a tal está sendo fiel. Aí, acho sacanagem. Acho falta de honestidade.
No mais, como seres de impulso e paixões que somos, devemos ir conforme você está fazendo, no nosso ritmo, de acordo com o que queremos, sem forçar nada.
Quanto ao telefone, não se sinta culpado, homens tem FOBIA de ligações. Nunca conheci um grudentinho que ficasse me pentelhando o dia todo no telefone, em compensação, às vezes, eu assumo, tenho que cobrar por um pouco de atenção, nem que seja num torpedinho...rsrsrs.
Aliás, vc acabou me dando um bom tema para um texto...

Beijos.

Anônimo disse...

Caramba, depois de um longo tempo prometendo consegui apárecer..rs
O blog ficou uma graça,bem menininha, adorei!!!

Bom, como falante inveterada, não posso deixar de comentar esse texto. Concordo com o que você escreveu, porém cheguei a uma triste constatação: eu acho que faço o papel do menininho da história (e isso fica confirmado pelo imenso tempo que eu levei para entrar aqui, ler e comentar..rs).
Fora isso, acho que a palavra certa é realmete a que você usou: liberdade! É claro que gostamos de nos sentir importantes uns para os outros, e nada é mais satisfatório do que sentir que aqueles que estão ao nosso lado, principalmente nossos amigos, estão porque realmente gostam e se sentem bem, como aconteceu no nosso encontro de "filóluluzinhas" na terça-feira. No entanto, ainda carregamos um medo horrível de "ficar sozinhos", quando se trata de relacionamentos amorosos, e quando encontramos alguém com quem nos identificamos nos tornamos paranóicos achando que estaremos condenados a viver sozinhos se aquela pessoa for embora. Grande engano!!! A vida é uma estrada onde cruzamos com as mais variadas pessoas o tempo todo, e, certamente, jamais faltará alguém que queira ficar bem ao lado de outra, escolhendo isso de livre e espontânea vontade! Assim, acredito também que possamos usar a nossa liberdade para sermos como somos, pedir atenção, esquecer de ligar, chorar porque alguém não ligou ou, simplesmente, não atender ao telefone porque não estamos com vontade. Nós somos assim, possuímos essa natureza ambivalente mesmo, e o que nos deixa imensamnete felizes é estar entre pessoas que entendam isso e ainda assim sentem-se felizes por estar ao nosso lado mantendo uma relaçao, seja ela qual for!

Bárbara disse...

Errei ali embaixo então consertei, portanto, leia de novo, rsrs

Oi amiga! O blog tá lindo, amei a pin-up! Blog de amor (do ponto de vista das femme, rs) tem que ser assim mesmo, cheio de beleza, sensualidade e feminilidade!
Então, olha a amizade realmente dura mais na maioria dos casos, mas é pela ausência de paixão envolvida, não a ausência de amor, mas de paixão, pelo menos em dose bem menor que de um relacionamento amoroso, a paixão envolve atração, desejo, magnetismo, coisa que na amizade, existe a atração de afinidade, mas não a intensidade e magnetismo para a típica relação de ''procriação'' rsrs
A paixão fere e é passageira, mas o que seria de um relacionamento sem ela né? Não existiria, todos nós juramos amor eterno ao parceiro, dizemos que o amamos, prometemos ou realmente tentamos os compreender mas depois acaba! Uma das partes ao que parece muitas vezes é mais compreensiva que a outra, e a outra quer ir embora, ou ambas desejam ir embora, ou se acustumam com a mesmice! Não sei o que pensar sobre isso mas sei que em toda relação o melhor sempre é o desapego (pelo menos em alguma parte) do outro! O que percebo é que a paixão é uma mola para a criatividade, para a explosão de alegria, como tbm tristeza da relação, por mais que podemos dizer que o amor maduro é o que fica na relação, a paixão faz falta para os parceiros como tbm para a criatividade do casal, apagar o fogo da relação, de qualquer maneira que seja, é o que desanda! Acho que o que difere tbm a relação de afeto de amigos, familiares do amor eros, o amor dos parceiros, é a paixão realmente envolvida, pq é o estado de serotonina, de deseja, queremos calor e atração na relação, não a mesma relação que temos todos os dias! A falta de paixão na relação os faz irmãos! Amigos! Amigo e amante é bom, namorar e ser só amigo, tende a desanimar mesmo!!! E esse tipo amor está aí, para mudar sempre, e para mudarmos sempre, pq ele ocorre muitas e muitas vezes, com muitas e muitas relações geralmente!!!
Amor é alquimia!

Bárbara disse...

Oi amiga! Continuando o comentário que coloquei logo acima...
Achei um trecho de algo que o Osho fala sobre o amor, não sei se vc sabe mas o Osho sempre foi muito polêmico e a visão dele do amor livre é algo interessante! Eu adoro o amor erótico, sei que não é o único, claro, uma frase interessante que ele diz é assim

''Se você se tornar consciente e alerta, meditativo, então o sexo poderá ser transformado em amor. E se a sua atitude meditativa tornar-se total, absoluta, o amor poderá ser transformado em compaixão. O sexo é a semente, o amor é a flor, compaixão é a fragrância.''

Outra coisa que ela fala que é muito interessante é:

''Aquilo que chamamos de amor é na verdade todo um espectro de modos de se relacionar, abrangendo desde a terra até o céu. No nível mais terreno, o amor é a atração sexual. Muitos de nós continuamos presos nesse nível, porque o condicionamento a que fomos submetidos sobrecarregou nossa sexualidade com toda sorte de expectativas e de repressões.
Na verdade, o maior "problema" do amor sexual é que ele nunca perdura. Só quando aceitamos tal fato é que podemos celebrá-lo pelo que ele realmente é -- dar as boas-vindas a seu aparecimento, e dizer adeus com gratidão quando ele se vai.
Então, à medida que vamos amadurecendo, podemos vivenciar o amor que existe além da sexualidade, e que honra a individualidade singular do outro. Começamos a compreender que o nosso parceiro funciona freqüentemente como um espelho, refletindo aspectos desconhecidos do nosso ser mais profundo, e ajudando-nos a nos tornarmos completos em nós mesmos.
Esse amor é baseado na liberdade, não em expectativas nem na necessidade. Em suas asas, somos levados cada vez mais alto em direção ao amor universal, que vivencia tudo como uma coisa só.''

Quis lhe passar essas mensagens do Osho pq pq é algo a se pensar...

Beijos

Anacris Maia disse...

Oi Sandra - acho que é a Sandra, rsrs - obrigada pelo comentário, demorou, mas, finalmente, vc apareceu por aqui. Acredito que muitas vezes confundimos liberdade com indiferença, falta de respeito e afins, é aquela coisa bem clichê, mas, ainda assim verdadeira: não podemos confundir liberdade com libertinagem.
Também concordo totalmente com você no que diz respeito ao medo de solidão. Muitas vezes nos permitimos ficar em relacionamentos pela metade, que nada acrescentam, pelo simples fato de não querermos encarar um tempo de solidão. É bastante comum esse tipo de sujeição, mas, eu acredito que todo mundo tem seu tempo e um dia a pessoa acorda e dá um basta nisso tudo. E qdo isso acontece é libertador.
Quando eu escrevi esse texto - já faz bastante tempo - eu estava muito incomodada com essa paranóia e neurose feminina de exigir atenção 24h. Acho isso cansativo e desgastante para os dois lados e ainda acho que muitas vezes tomamos atitudes assim sem perceber. Prova de amor exigida não tem o mesmo valor daquela que veio gratuita...

Anacris Maia disse...

Oi Bá, demorei mas, cá estou para agradecer e responder o seu comentário. Concordo com seu ponto de vista e sem dúvida há além da paixão, inúmeras outras diferenças que tornam uma relação de/para "procriação" e uma relação de amizade. E você como minha amiga, sabe que amor/namoro sem paixão me entedia. Também acredito que a paixão nos motiva, nos inspira, ainda que gere sofrimento. Mas, pensa bem, como diria Nietzsche, se deseja um grande prazer, prepare-se também para uma grande dor. A paixão dói tanto porque também nos causa uma alegria inenarrável e até entre os aparentemente mais racionais é inegável como é boa a sensação de estar apaixonado, seja para alguns borboletas no estômago ou para outros excesso de serotonina. Há inúmeras teorias que explicam a paixão, mas, o que mais importa não é sua explicação e sim o que ela nos causa, em que nos transforma.
Estou longe de ter respostas, mas, penso que uma relação tende ao tédio não só porque acabou a paixão - que nos inspirava a fazer todas as loucuras - mas, porque também deixamos de olhar o outro com aquela sensação de primeira vez. O tédio vem quando não nos importamos mais um com o outro, quando a relação perdeu a graça, mas, graça essa que foi encerrada pelos dois e não apenas por um. No fim das contas, todos nós temos culpa no cartório. Beijão, amiga!!!

Anônimo disse...

Esses dias eu me peguei pensando exatamente nessa questão sobre o porquê de as amizades durarem e os relacionamentos amorosos acabarem. Inclusive perguntei pro meu namorado, que não conseguiu pensar sob esse aspecto. Estou passando por momentos difíceis no meu relacionamento justamente por ter criado essa situação de dependência. Porém, estou exercitando meus pensamentos para que as coisas mudem.
Muito obrigada pelas palavras! Foram essenciais para mim! :)

Anacris Maia disse...

É muito comum, quando estamos envolvidas, nos vermos nessa situação de dependência, às vezes, nem percebemos.
De coração, espero que você encontre seu caminho de volta, é um exercício constante cuidar para não se perder dentro da relação. E se te consola, me questiono diariamente sobre isso. Abraços, boa sorte e obrigada por ler o blog.