quinta-feira, 4 de março de 2010

Abaixo a hipocrisia!!!

[Inédito]

Por: Anacris Maia

Fala sério, quanto conservadorismo! Quanto puritanismo! É risível a atitude do Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) em acatar a liminar de um grupo de consumidores e da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres que se sentiram desrespeitados com a propaganda da cerveja Devassa, protagonizada pela socialite Paris Hilton.

A campanha publicitária começou a ser exibida semanas antes do carnaval e já gerava expectativa ao exibir uma loiraça foco de um voyer que a fotografava. A “bem misteriosa” se revelou quando Paris desembarcou no Rio de Janeiro para o Carnaval. E eu achei demais a propaganda! Do mesmo modo que me divirto com as da Skol “porque redondo é rir da vida” e outra da Schincariol “CervejÃO”.
Ao contrário dos pudicos que entraram com o pedido de cancelamento da campanha, eu, como mulher, em NENHUM momento me senti desrespeitada, agredida ou ofendida assistindo os comerciais da “Devassa, bem devassa”. Aliás, me sinto desrespeitada em outras coisas: por exemplo, a mulherada pelada que desfila no carnaval e fica rebolando a bunda e mostrando os peitos numa roda de homem tocando pandero.

Engraçado que com o Carnaval ninguém mexe e as feministas – se é que ainda existem – não se sentem objeto vislumbrando uma cena dessas. Também, que ingenuidade a minha! Proibir carnaval, vitrine cultural que atrai milhões de turistas todos os anos e que faz com que a mulher brasileira ganhe rótulo de fácil – no melhor dos adjetivos – em qualquer lugar do mundo. É, sem dúvida, carnaval não é ofensivo às mulheres.

Outra coisa que também me agride e acredito que agrida a outras mulheres, e a respeito disso o Conar e nenhum outro órgão responsável pelos direitos da mulher não tomam nenhuma providência, são as campanhas publicitárias exibidas em revistas e jornais com aquelas modelos de rosto perfeito, pele perfeita e corpo escultural que só existe... no Photoshop. Quando é que o Conselho vai exigir uma nota, ainda que em letras miúdas, no rodapé da propaganda informando todos os retoques que a dita cuja “perfeita” sofreu para ficar assim, tão plástica e irreal?

Mas, voltemos ao falso conservadorismo, afinal, mesmo a propaganda sendo censurada ela cumpriu seu objetivo e a liminar contribuiu indiretamente para fortalecimento da marca – está na boca do povo e nas capas de jornais a polêmica em torno da Devassa. Aliás, o episódio da cerveja me remeteu a um outro caso, dessa vez com a propaganda das Havaianas. Sabem aquela em que uma avó e uma netinha se encontram para um almoço e chega um ator famoso. A netinha começa a falar que deve ser ruim casar com gente famosa e a vovó retruca mais ou menos isso: “quem falou em casamento, tô falando de sexo”. Pois é, tanto que pediram que também foi tirada do ar...

Engraçado, estão tão preocupados com a moral e os bons costumes da propaganda brasileira, mas, deviam também se preocupar em exigir mais informações dos rótulos de muitos fabricantes. Afinal, a informação do que está tentando ser vendido e consumido é mais importante para quem é consumidor do que os meios que a propaganda se utilizou para nos conquistar. Por que, por exemplo, não são exigidos de empresas de cosméticos e produtos de higiene e limpeza um rótulo informando que não são testados em animais? Isso ajudaria fabricantes que de fato se preocupam com outros seres vivos – e não aqueles que só se utilizam da bandeira ambiental para marketing – e ajudaria gente que como eu, luta no supermercado tentando identificar aqueles que menos mal causam ao meio ambiente.

É óbvio que a questão da sensualidade na propaganda do grupo Schincariol é um ponto, mas, não único. Como a campanha causou um certo furor é comum empresas concorrentes percebendo a polêmica, colocarem mais lenha na fogueira. Enfim, são os bastidores do poder, ninguém consegue provar nada, mas, todo mundo sabe como acontece.

Casos como esse, expõem a hipocrisia social em que vivemos: a Globeleza que é feita pelo Hans Donner é arte, a Paris Hilton é pornografia. Por outro lado, a Secretaria Especial de Políticas para Mulheres deveria se preocupar não apenas com a moral, mas, em amparar efetivamente mulheres que sofrem com a violência doméstica, estipular igualdade real de salário, já que homens que ocupam mesmo cargo ganham maior salário, em impedir severamente o tráfico de mulheres, enfim, atitudes concretas e que não fiquem apenas no papel ou em campanhas de conscientização. A censura do comercial com a Paris Hilton provou que quando se quer efetivar algo, é possível, então, porque com coisas realmente importantes a coisa anda tão devagar?


BEM DEVASSA...

7 comentários:

Ricardo disse...

Excelente post amor!
Vc sabe que eu adorei a propaganda da Devassa... ahhh!!! bem devassa... o apelo de marketing é claro, a musica é fantástica (soundtrack do filme "The Man with the Golden Arm" de 1955), conotações com outro filme (Janela Indiscreta) com o fotografo "dando aquela espiadinha" e obviamente a devassa bem loura Paris Hilton, que convenhamos transformou-se de mera Olivia Palito Loura com um chiuaua na bolsa a um monumento escultural de madeixas bem louras bem devassa...obviamente muito pré-produzida (haja maquiagem, cabelereiro, luz de prenchimento, etc...).
Mas de boa, onde está o apelo sexual? Putz.. ela nem mostra a calcinha... insinuações com o corpo são apelos sexuais? A Paris passar a Devassa no corpo é apelo sexual? Bom.. como dizia alguem.. o Conar precisa dar uma e tomar uma Devassa e depois, tranquilo reavaliar o ato a qual ele se submeteu.
Mas deixando a Devassa de lado (mas não tanto para ela não esquentar) você tem que escrever mais sobre o Photoshop em propagandas de revista, vamos pensar nas "gostosas" "perfeitas" "lindas"sem estrias, poro etc que anunciam produtos de beleza e afins...... este o Conar devia avisar: "O Ministério da Saúde adverte: ELA NÃO É TÃO BONITA ASSIM!!!" ou "PARA!! ISSO É PHOTOSHOP, NÃO SE SINTA DIMINUIDA E NEM FIQUE DEPRESSIVA".
Enfim, isto tudo é marketing.. e seja bem vindo ao inferno! Com Devassa ou sem Devassa vamos continuar sendo iludidos e afetados em nosso sentidos mais primórdios.

Um enorme beijo, do seu devasso namorado...
Ri

Anônimo disse...

Putz, Cris! Eu também fiquei emputecido com este bando de moralista cego que temos nesta porra de país!

Um monte de conhecidos meus também tiveram esta reação. Tanta coisa que deveria preocupar mais do que apenas isso.

Realmente, o carnaval, as revistas que mostram as mulheres perfeitamente impossíveis (tanto para as mulheres, como modelo; quanto para os homens, para conquistá-las...), isso é "normal", né?

Até agora não tinha encontrado um texto tão bom assim para expressar o meu ódio contra esta hipocrisia gritante!

parabéns!

Daniel Alabarce

Bárbara disse...

Amiga, desde o comercial das havaianas eu fiquei indignada, não sei qual o tabu que mais chocou ali, se foi a Paris, se foi a nome da cerveja, se foi a mocinha com os seios nús aparecendo na cerveja (que está no novo comercial com uma tarja preta nos seios). O que acho mais ridículo e moralista é o fato de que isso nada vai melhorar nossa condição social, e o mais ridículo são as femininistas lutaram pelo direito da mulher mas muitas delas não aceitarem o liberdade da pessoa, a publicidade vende mesmo sensualidade, indução de sexo, vende pq as pessoas querem isso, apesar de todo estímulo favorecendo isso, mas não vejo problema no carnaval em relação as mulheres, sinceramente, o carnaval brasileiro vende sim sua imagem ao exterior, do famoso termo de mulher fácil, da caipirinha, do rio de janeiro, mas em contrapartida eu acho bonito e agradável muito do carnaval, mas estar viajando, e sei que hoje carnaval é só mera tradição, mas em suas origens carnaval sempre foi festival sexual, culto a Dionísio! Bom mas voltando a falar do comercial, só que das havaianas, mosrtra a pura hipocrisia em relação ao sexo, qual o problema de se falar de sexo na tv? Aquele discursinho antiquado que criança será influenciada não cola mais, são vários fatores que podem induzir ao sexo promíscuo, e eu não considero errado, em relação ao sexo considero desagradável a prostituição, o estupro e o pouca consciência dos riscos do sexo perigoso, que pode até levar a morte e a perigos irreparáveis, o mundo mudou, pode ter sido para bom ou para ruim, depende do espectador que dirá isso, se querem ter moral sobre sexo, que nos preocupemos com a saúde relacionada a isso, com os perigos de algo perigoso, e tbm da violência que pode estar ligada a ele, tem tantas outras coisas mais pra se preocuparem e vão se preocupar com a Paris Hilton usando um "maiô" preto?
Aaaaaaaaaaa, faça o favor, rsrsrs

Beijos

Bárbara disse...

Outro post continuando o que eu escrevi! Em relação a prostituição acho desagradável os perigos que podem sofrer tais mulheres, os riscos que se pode correr por ter ter sexo com pessoas diversas, elas podem ter sorte mas podem sofrer violência...

Anacris Maia disse...

Hahahahahahahahaha, adorei o comentário Amor. É verdade!!! Gostei da sugestão da segunda advertência: "PARA!! ISSO É PHOTOSHOP, NÃO SE SINTA DIMINUIDA E NEM FIQUE DEPRESSIVA". Pode deixar que vou escrever mais sobre esse tema, você sabe como isso me incomoda. Beijos.

Anacris Maia disse...

Pois é Dani, essa ilusão de mulheres perfeitas ou "manuais" de como conquistar a mulher perfeita e afins é um saco, um monte de mentira generalista ao mesmo tempo que paradoxalmente não se conhece ninguém que tenha aplicado tais métodos e se dado bem. Obrigada pelo comentário. Abraço.

Anacris Maia disse...

Pois é amiga, a grande revolução do século XX foi a feminista, a pílula anticoncepcional que deu autonomia para mulher saber o que quer e fazer com o próprio corpo. Pra mim, a discussão sobre a influência dos meios na sociedade é muito mais profunda e está enraizada em inúmeras outras causa. Ninguém é tão estúpido assim a ponto de pensar que se usar o desodorante A, B ou C ganhará a gostosa. Acho que os meios de comunicação representam o "circo" que a sociedade quer assistir. Beijos.