quinta-feira, 29 de abril de 2010

A vida anda séria demais!


Postado em 12.07.2008


"Que saudade agora me aguardem, chegaram as tardes de sol a pino. Pelas ruas, flores e amigos me encontram vestindo meu melhor sorriso. Eu passei um tempo andando no escuro, procurando não achar as respostas, eu era a causa e a saída de tudo e eu cavei como um túnel meu caminho de volta".

(Temporada das Flores, Leoni, composição Leoni)

Por Anacris Maia


Ultimamente tenho percebido que minha vida anda séria demais e por isso, acaba ficando chata, sem colorido, sem leveza. Eu sei por que e como isso começou a acontecer. Foi de uma forma sutil, imperceptível, porém, hoje sinto a névoa cinza que se estabeleceu. As causas, acredito eu, são comum a todos: um dia não podemos dormir até mais tarde porque temos um trabalho da faculdade para fazer, no outro não podemos viajar no feriado prolongado, porque a empresa que trabalhamos não vai nos liberar, não vamos mais à locadora alugar um DVD porque sentimos culpa por estar ali, perdendo duas horas da nossa vida assistindo algo fantasioso enquanto deveríamos estar lendo aquele livro para a tese... Enfim, vamos nos afundando nesse monte de prioridades que criamos e esquecemos de priorizar o essencial: nós.


Percebi que tenho esquecido de muitas coisas que eram (e são) essenciais para mim. Como por exemplo, pegar meu violão (diga-se de passagem, instrumento que eu não sei tocar), colocar um CD Acústico e começar a cantar na frente do espelho, me imaginando uma estrela do pop/rock. Sinto saudades das sessões de vídeo com minhas amigas. Não importava se iríamos assistir uma comédia-romântica onde nos derretíamos em lágrimas ou um suspense daqueles que depois ninguém conseguia dormir. O que importava é que riamos tanto (e chorávamos com os filmes), e também nos empanturravámos de pizza e vinho. Um verdadeiro tributo à Dionísio.


Sinto saudades de quando adolescente me pegava sonhando com o que queria ser. Hoje, os sonhos são tão realistas, tão minuciosamente planejados e sem chances de errar (mas, o erro acontece mesmo assim, o que é absolutamente normal!), que perderam a fantasia, o efeito surpresa. Sinto saudades das reuniões de quartas e quintas-feiras onde íamos num posto de gasolina assistir os jogos do São Paulo que passavam pelo pay per view e também dos diversos shows do Nando Reis, Engenheiros do Hawaii e Capital Inicial, onde exorcizava minhas tensões dançando, cantando e gritando...


Hoje minha vida é uma sucessão de adiamentos, mínimos é verdade, porém, não menos frustrantes e que, acumulados formam a névoa cinza que citei mais acima. Não consigo fazer minha unha, hidratar meu cabelo, assistir minhas toneladas de comédias-românticas, nem meu time do coração consigo mais acompanhar. Gostaria de escrever mais, ler mais, estudar mais Filosofia, ir mais ao cinema, dançar no meu quarto ouvindo música em volume máximo – pois é, no meu quarto porque sinto vergonha de dançar em balada – gostaria de desenhar mais, ler mais poesia, pintar minhas camisetas, andar de bicicleta, cozinhar... Coisas que eu sempre fiz e que hoje não priorizo mais, culpa da rotina que alienadamente escolhi para mim, em que, acreditando estar no caminho certo, acabei me afastando de mim mesma.


Minha vida se divide em coisas que sinto saudade de fazer (e pretendo resolver isso em breve) e em coisas que eu quero fazer. Por exemplo, quero fazer yoga, meditar, aprender francês pelo charme, alemão para a vida acadêmica e inglês para cantar as músicas que eu gosto. Também quero viajar, conhecer a Europa, a Grécia... Me engajar em causas sociais, fazer algo realmente significativo para a vida de alguém e consequentemente para a minha. Aprender dança de salão para ver se perco a timidez de dançar em público, fazer mestrado, doutorado, ter filhos, família...


A gente tem o péssimo hábito de adiar nossa vida. Achando que temos tempo suficiente, nos auto-enganamos esquecendo nossa finitude. Há algum tempo as coisas importantes da vida tem me chamado mais atenção, por isso, outras que antigamente eu julgava essenciais têm me incomodado tanto. Não sei quando ou como isso vem, mas, de fato quando a tal névoa aparece, vem para nos ajudar a perceber se os rumos que estamos dando para a nossa vida de fato estão valendo a pena.


Quando percebi que eu acordava e não tinha tempo de admirar o céu, nem a beleza de uma flor ou rir de uma piada, comecei a rever meus conceitos. Lembrar a pessoa que eu era me ajudou a encontrar o caminho de volta. Alguns preferem se arrastar, fazendo da existência um fardo e se escondem por trás da acomodação com frases do tipo “a vida é assim”. Ainda bem que meu inconformismo não me deixa perder a vontade avassaladora de viver: as coisas precisam ser intensas e inteiras. Quero estar inteira no amor, no trabalho, nos estudos, na família. Quando não é assim, não me permito ficar, não agüento ficar, por mais que eu mesma me force. Parafraseando alguém que infelizmente agora não me recordo, acredito que ‘viver é bem mais que simplesmente respirar’.