quinta-feira, 27 de maio de 2010

O padrão que aprisiona

Postado em: 16.08.2009

Por Anacris Maia

Há muito tenho me incomodado com essa ditadura da beleza pregada pela mídia. Seja porque como mulher, sinto na pele o fato de não ser loira, escultural e de beleza padrão europeu, seja por ver amigas sofrendo essa pressão constantemente, insatisfeitas com seus corpos, querendo ser mais peitudas, menos peitudas, mais gordinhas, mais magrinhas, mais bundudas, menos bundudas, ter cabelos enrolados, ter cabelos lisos, ter olhos azuis... Ufa!!! Ser mulher nunca foi fácil, mas hoje, somos violentadas diariamente por padrões impossíveis de se alcançar e o que é pior, não percebemos essa violência.

Se apenas agora resolvi manifestar meu pensamento foi por ter lido um artigo onde grandes empresas de cosméticos (com certeza você tem um shampoo, um creme para pele, um desodorante com essas marcas aí na sua casa) em suas propagandas na Ásia e África divulgam produtos para clareamento da pele. Isso mesmo, para as peles morenas ficarem brancas. Está claro que o conteúdo da propaganda é racista. E sempre é bom lembrar que a última tentativa de implantar a “raça pura” no mundo terminou em holocausto.

Não vou me ater ao conteúdo da matéria, ao final deste artigo deixarei o link onde a li. O que mais tem me indignado e incomodado é como cada vez mais estamos insatisfeitas com nosso próprio corpo. E não é porque não temos auto-estima, não nos valorizamos... Isso é papo furado que os ditos “formadores de opinião” se utilizam para não colocar a discussão num nível menos senso comum.

Outro dia, assisti a um vídeo que andou rolando pela rede mostrando como a Dove “monta” a modelo que irá representar seu produto. E digo monta, porque literalmente é isso que ela faz: além dos recursos “naturais” como maquiagem e cabeleireiro, o photoshop corre solto, alongando pescoço, arqueando sobrancelhas, tornando olhos mais expressivos e um rosto mais marcado. Não que esses recursos sejam novidade, sabemos que as revistas se utilizam dele seja para esconder pequenas imperfeições, seja para criar Barbies. Ao final desse vídeo, vem a frase: “nosso conceito de beleza está distorcido”. E está mesmo!

A mulher em toda história sofreu repressão, sempre foi oprimida e sempre lutou para conquistar seu espaço e seus direitos. Hoje, a mulher é oprimida da pior maneira, porque é uma opressão sutil, com jeito amigável. É uma opressão que sabe vender seu produto, sabe atingir nosso ponto fraco ao passar a impressão de que usando o batom X, o shampoo Y ficaremos tão lindas e sensuais quanto as modelos que utilizam o produto. Quando se alimenta sonhos, desejos e se estimula pseudo-possibilidades é mais fácil se tornar refém. O discurso diz o que queremos ouvir, por isso, é mais difícil nos libertar ou o que é pior, perceber que estamos aprisionadas.

E não estou dizendo que sou contra o uso de batons, um perfume gostoso, um cabelo bonito e uma roupa que nos valorize. Acredito que é da natureza feminina se cuidar, ser bonita... Mas o que me preocupa e também me entristece é essa padronização, essa “igualdade” no pior sentido que quer transformar todas nós em bonecas plastificadas e sob medida, sem marcas e impecáveis.

Quero saber onde nós, mulheres de verdade, que um dia fomos meninas, que brincávamos e caímos e portanto, temos cicatrizes no joelho ou em qualquer outro lugar ficamos? Onde fica a diversidade, a pluralidade da mulher com seus cabelos lisos, encaracolados, ondulados? Mulheres de tantas raças, de cabelos loiros, ruivos, pretos, castanhos, brancos, de olhos azuis, verdes, pretos, castanho? Que droga de mídia é essa que consegue me deixar tão insatisfeita com quem eu sou?

Isso para mim é desumano, é desleal e surreal, afinal, os padrões que nos pregam não são reais. As imagens que aparecem na televisão e nas revistas são muito bem produzidas, detalhadamente estudadas, luzes colocadas em lugares estratégicos para salientar ou esconder, o cabelo é cuidadosamente arrumado... Até aquela franja com ar displicente foi muito bem ajeitada para passar essa impressão. Nada é natural, tudo é programado.

E volto a salientar, o problema não está na vaidade e sim em querer ser o que não se é e o que é pior, alguém que não existe, alguém modificado em computador, alguém que passa por uma transformação radical para vender promessas de milagre. Chega! Olhemos em volta, percebamos nossas amigas, nós mesmas... Cada uma diferentemente linda.

Deixemos nossos cabelos cacheados e encaracolados soltos, sem medo de ser feliz, vamos curtir nosso corpo, nosso estilo, nosso charme... A gente perde muito tempo tentando ser gostosa demais. Mas, afinal, quem determina o que é ser uma mulher gostosa ou não? A mídia prega uma regra, mas não quer dizer que não tenhamos exceções. Minha experiência e observação mostram que os homens, felizmente não são iguais e tem gostos muito variados. Então, ao invés de queimarmos sutiãs em praça pública, vamos revolucionar a nossa cabeça: basta desse lixo que intoxica nossa vida e nos reduz a lixo quando nos comparamos às capas de revista.

Vamos assumir nossa diferença, curtir mais quem somos e não quem gostaríamos de ser. Vamos nos cuidar sem exageros, obsessões, correntes... Quem sabe assim, mais livres, refletiremos de fato uma beleza real e não aquela idealizada pelos meios de comunicação em parceria com as indústrias de cosméticos.

Um comentário:

Viii Lourençoo, disse...

Também, não sou favor a o padrão da Mídia, uma coisa que não gosto é tentar ser outra pessoa pra me sentir bem, o que acaba acontecendo pela prisão que a mídia nos dá :@
bom, quem também não gostaria de ser mais alta ou magra :) [/Confesso que adoraria , ser um pouco mais alta, e magra '

Bom, gosto muito desse blog, e cada postagem que leio, é uma lição de vida!
beijoss :*