domingo, 20 de junho de 2010

As evidências não tão evidentes do amor

Postado em: 06.02.2009
Por Anacris Maia

Você seria capaz de afirmar que conhece muito bem alguém, mais do que a própria pessoa? E quantas vezes já reconheceu que preferiu fechar os olhos em troca de um pouco de afeto disfarçado de felicidade? Falar do humano é falar do imprevisível e acreditar no improvável. Essas são apenas algumas questões que o filme Banquete do Amor me fez levantar.

O filme se desenrola nessas duas questões centrais: o enxergar o outro e o cegar-se para o outro. A diferença é sutil, porém profunda. Há algum tempo postei nesse blog um texto em que defendia - e continuo defendendo – a idéia de que o Amor Novo tem a vantagem de instigar a curiosidade e carrega ar de novidade. Isso dura alguns meses, para alguns sortudos anos, mas, o fato é que o cotidiano logo transforma o que tinha tudo para ser uma love story em romance comum e tedioso.

A mesmice do relacionamento me dá a deixa para trabalhar a primeira questão. A relação não se torna enfadonha por falta de romance ou carinho – aliás, o filme retrata muito bem isso – mas sim, a pretensão que temos ao acreditar que já conhecemos o outro e envolvidos em nossa arrogância, acreditamos piamente que tudo já foi revelado, ou seja, julgamos não precisar mais conhecer o outro. Deixamos de perceber o outro, suas palavras não causam mais o mesmo impacto ou empolgação e deixamos de “ouvir” aquilo que o outro não diz, mas insinua. E quando o fim chega, muitas vezes de forma inesperada, nos sentimos perdidos e sem entender o porquê desse desfecho. Afinal, estávamos indo tão bem: éramos românticos o suficiente, carinhosos o suficiente, honestos o suficiente... Mas, a gente já está bem grandinho para saber que isso não é suficiente.

Acredito que o que nos faz andar nas nuvens no início de um romance não é de responsabilidade de toda a endorfina que nosso corpo libera e que pré-determina uma validade para a paixão. Essa sensação vem também do fato de nos tornarmos significativos para o outro, ouvidos, desvelados. É isso que faz com que nos sintamos únicos. Perdemos o outro no momento em que não nos permitimos mais conhecê-lo, quando o enquadramos tão bem nas medidas que não lhe permitimos outras formas. E nós temos tantas outras formas... Somos tão paradoxais, tão duais, tão surpreendentes e tão diversos. Poeticamente dizendo há inúmeros ‘eus’ morando dentro de mim. Porquê será então que insistimos em trancar esses inúmeros “personagens” que habitam em nossos companheiros (as) num quarto escuro e jogar a chave fora? E será mesmo que esses outros “eus” ficam tão bem trancados que não os percebemos?

Frases do tipo “você sempre faz assim”, “eu te conheço” e “não esperava isso de você” são odiosas por representarem, pelo menos para mim, o romance engessado. Ninguém é tão simples assim a ponto de ser reduzido e totalmente revelado em alguns anos de convivência. Se eu ainda me surpreendo comigo e me descubro a cada dia não posso aceitar que alguém me defina. É um processo contínuo que provavelmente durará até o fim da vida, portanto, se não quer ser surpreendido, evite rótulos e definições. Isso faz com que qualquer namoro (casamento ou rolo) perca a graça.

Se Banquete do Amor fala de sensibilidade e percepção do outro, o filme vai cuidar também da nossa cegueira, daquilo que recusamos enxergar, dos sinais que deixamos para trás e relevamos para termos um pouco de felicidade. Claro que não estou declarando aqui total intolerância àquilo que for diferente no parceiro. Estou falando do quanto nos mutilamos e das migalhas que aceitamos para ficarmos na companhia de alguém. No fundo, nós todas sabemos quando estamos numa relação em que os interesses são completamente diferentes e que desfecho terá isso. Verdade seja dita, o outro é o que é, aceitemos isso ou não.

E exemplos para esse tipo de cegueira não faltam: ficar com um homem galinha acreditando que um dia ele será diferente, aceitar ser o “tapa-buraco” ou “segunda opção”, como quiser chamar, reconhecendo que o cara não é lá muito apaixonado por você e talvez até pense em outra, acreditar-se poderosa suficiente para transformar um solteirão convicto em marido apaixonado ou na conversa fiada de homem casado que diz para a amante que vai se divorciar, mas, já a enrola há anos. Claro que não somos a fortaleza que gostaríamos de ser: temos carências, gostamos de afeto e companhia, faz parte do feminino sermos mais amorosas. O problema surge quando nossa perda de amor próprio fica tão evidente quanto às evidências de um romance fracassado, mas, que ainda insistimos. E insistimos por motivos diversos: insegurança, medo, gratidão, amizade, enfim. Mas, seja qual for o motivo que impede o rompimento, este deve ser assumido, nada de vitimizações. Sabemos o que escolhemos e que fim terá.

Acredito que o sofrimento não vem pelo fracasso de mais uma vez ter falhado numa relação, mas sim do fato de não conseguirmos transformar o romance fadado ao fracasso no conto de fadas que a gente sonhou. Em suma, fechamos os olhos ou temos um olhar de conveniência onde só enxergamos aquilo que queremos ver. São evidências não tão evidentes e que na maioria das vezes optamos por pagar para ver – somos insistentes e persistentes – só que a gente não imaginava que no fim a conta era tão alta.

2 comentários:

Ana Bárbara disse...

Oi amiga! Não assisti ainda esse filme mas fiquei curiosa desde que vc postou sobre ele aqui! Vou assistir e depois posto um comentário, hehe

bjoss

Anacris Maia disse...

Assista sim, amiga é muito legal e foge do clichê dos romances convencionais. Acho que vai gostar e fazer boas reflexões... Beijos.