quarta-feira, 23 de junho de 2010

Odisséia hospitalar

[Inédito]

Por Anacris Maia

Depois de mais de uma semana acamada, sem voz, passando noites em claro com uma tosse seca e irritadiça somada a uma forte dor de cabeça que começou no sábado eu finalmente venço os apelos do corpo e sucumbo diante da possibilidade de me consultar com um médico do Pronto Socorro (P.S) Municipal. Quem me conhece sabe que eu resisto bravamente antes de recorrer ao P.S. Tenho meus motivos e minha consulta de ontem só veio corroborar com minhas teorias.

Tentando fazer bom uso do jornalismo literário buscarei levar meus escassos, porém, queridos leitores a experiência que presenciei nessa fatídica segunda-feira. Chego ao P.S por volta de 20h45 e meu desânimo torna-se visível quando percebo que está mais lotado que o esperado. Se considerarmos os finais de semana como os dias mais propícios para um tumulto na emergência, era para ontem parecer no mínimo mais tranqüilo...

Por um segundo, penso em dar meia volta e me aconchegar no cobertor quentinho da minha cama, até que uma pontada na cabeça me lembra da quantidade de analgésicos que eu já tomei e que não fizeram efeito, logo, me resigno esperando pacientemente uma dose mais cavalar para aliviar o mal estar. Chego ao balcão, preencho a ficha com uma atendente com cara de cansada e vou me sentar na sala de espera, aguardar.

Na tevê, o Jornal Nacional noticia os últimos lances da Copa do Mundo, cansada de tudo aquilo e precavida em situações de espera, retomo a leitura de O Existencialismo é um Humanismo, do Sartre. De repente, minha leitura é interrompida pelo “tãnan” do aparelho de senhas. Três números são chamados, ainda não é o meu, mas, já fico mais animada “apesar de lotado, está indo rápido”, penso. Pois é, penso, logo me precipito... Não sei se a máquina das senhas quebrou, algum médico enfartou ou alguma emergência entrou por algum outro portão, o fato é que por mais de uma hora ninguém mais naquela sala ouviu o “tãnan” tão aguardado.

Já passa das dez da noite, minha leitura já rendeu quase um artigo, a Tela Quente já começou, além do filme ser ruim, a tevê está sem som, então me vejo numa angústia existencial e escolho: “se até as dez e meia eu não for atendida, vou embora daqui”. Olho pro relógio, pras pessoas em volta – cada qual mais injuriado com a demora – limpo meus óculos, jogo um joguinho besta no meu celular, reclamo para a mulher do lado que também está incomodada com a demora até que “tãnan”, “tãnan”, “tãnan”, finalmente, às 22h25 sou chamada a passar por aquela porta que separa aqueles que aguardam atendimento daqueles que estão recebendo tratamento...

Volto a me sentar em umas poltroninhas enquanto uma mulher é chamada ao consultório. Percebo que a porta nem é fechada, fico grilada: “que tipo de consulta é essa?” Em menos de cinco minutos a mulher saí com uma receita e prontuário e se encaminha mais para o fundo do P.S, onde estão salas de ortopedia, raio x, soro, inalação e afins. Meus pensamentos são cortados quando ouço meu nome – sou eu agora a entrar naquela sala.

“Boa noite”, educadamente cumprimento o médico de meia idade, cabelo desgrenhado e baixinho por trás da mesa. Ele ignora minha simpatia e antes que eu me sente, apressadamente pergunta o que eu tenho. Aí sou eu que o ignoro e me encaminho para a cadeira, só depois de acomodada é que começo a falar das minhas mazelas físicas. Conto tudo o que já contei para vocês no início desse texto e acrescento, em relação a minha dor no rosto, que talvez seja sinusite. Ele imediatamente acata meu diagnóstico e começa a escrever no prontuário, aliás, em nenhum momento ele olhou sequer para a minha cara.

“Sua tosse é conseqüência da sinusite, vou te passar um antibiótico e um xarope. Agora você vai tomar uma injeção para a dor e fazer uma inalação”. Pronto?! Só isso? Quer dizer que eu fiquei mais de uma hora dentro daquele lugar para eu mesma me diagnosticar? Eu não sou médica! Sou fã de séries médicas, procuro alguma coisa na internet e só. Mas, o fato de não ser médica não significa que sou mal informada, sei que dor de cabeça indica inúmeras doenças, desde um aneurisma até sim, uma simples sinusite. “Calma aí, você não vai tirar minha pressão? Auscultar meu coração? Pedir um raio x do meu pulmão?”, pois é, penso, logo não falo. Outro problema do pensamento: se pensamos, não agimos.

Inconformada, saio da sala e vou em busca da saleta das inalações pensando: “caramba, o cara me diagnosticou sem nenhum exame, sem nem olhar pra minha cara!” Isso não é pior que auto-medicação? Afinal, qualquer um sabe que para diagnosticar é preciso examinar. Bom, supero isso rapidamente porque neste momento estou parada num corredor sem ninguém para me dar informação sobre onde eu faço a bendita inalação. Pergunto para uma enfermeira que gentilmente me indica o local. É no fim do corredor.

Não pense que o cenário é de Grey´s Anatomy ou E.R, enquanto caminho vejo pessoas tomando soro, gente quebrada esperando sala para ser atendida, enfim, exposição e tumulto total. Mais uns quinze minutos, sou atendida pela enfermeira que me aplica uma injeção de dipirona na bunda. Eu tenho pressão baixa, se a pseudo-consulta tivesse sido completa, o médico teria medido minha pressão e saberia que não poderia me indicar tal medicamento. A injeção queimou tanto que achei que ia sair do P.S arrastando a perna direita, meu joelho ficou mole, estava sem força, minha sorte foi que me arrastei a poltrona da inalação onde literalmente desmoronei.

Terminada minha inalação encerrou-se também minha odisséia no P.S. Passei pelo consultório e ele atendia outros pacientes, mesmo ritmo, mesmo descompromisso. Saio de lá, pensando que deveria ter exigido exames, exigido uma consulta decente ainda que isso me fizesse parecer petulante. Sai de lá pensando que muitas vezes eu critico, porém, num momento como esse acabei compactuando, não tive voz, não agi quando a situação pedia uma postura mais firme e menos submissa.
Por pensar que estava sendo atendida por um profissional, eu o respeitei e não questionei seus métodos e sua consulta. Depois é que entendi que aquilo não era respeito, era apatia, passividade. Eu aceitei ser tratada daquela forma, assim como todos os outros pacientes. Por trás da sua mesa e do seu dr. eu e os outros o tornamos inquestionável. Sendo assim, o problema não é ele e sim eu que me calei quando deveria ter falado, eu que ainda carrego costumes arraigados que por mais que meu pensamento e minha lógica os identifique como mera domesticação do meu espírito, ainda estou aprisionada a eles mesmo que buscando meios de me libertar.

3 comentários:

Bárbara disse...

Ai amiga, esqueci uma parte da frase e depois que li que vi como ficou desconecto, rsrs, estou colocando o pedaço da frase que não sei pq apaguei, rsrs, depois vc apaga o comentário anterior, hauhuauhua
"Oi minha querida! Soube mesmo que vc estava mal, mas deste incidente eu não soube, vc me fez lembrar de uma situação que tive a anos atrás, em que fiquei doente e fui ao pronto-socorro ou pronto-atendimento com minha madrinha, e quando fui chamada para entrar o segurança não deixou minha madrinha entrar, como eu estava muito mal eu podia cair a qualquer momento e mesmo assim eles são resistentes, ela ficou brava com ele e disse que iria entrar sim e entrou. Sinceramente não sei o que ocorre com esses médicos, pq sabemos que certa frieza é necessária, mas não a falta de humanismo, não sei porque eles agem assim, acho monstruoso da parte de muitos deles certa ignorância com o paciente, como também a falta de compreensão psicológica, em que tudo fica embrutecido e pouco compreensível e limitado, o que vc disse realmente confere, porque quando pensamos muitas vezes não agimos, acho que é o ato de pensar e pesar os pós e os contras que nos paralisa nestas situações, é colocar tudo na balança, analisamos o que devemos falar, é a manifestação do ato do controle da razão falando nessas horas, a pessoa a nossa frente é estranha, não sabemos o que pode ocorrer, é um ato natural e pouco consciente no momento, mas nesses casos precisamos agir porque se mostrarmos firmeza nestas horas eles logo mudam, conheço muitos casos em que ameaçar a falta de humanismo deles faz eles se tornarem uma seda, isto deveria ocorrer para todos que necessitam, mas nem todos tem a ousadia de enfrentar ou mesmo nem pensam no momento por estarem mal ou o que seja..."

Anacris Maia disse...

Olá amiga, obrigada pelo comentário e é uma pena que assim como eu, vc também já tenha experimentado situações semelhantes no serviço público de saúde, isso mostra que é uma realidade mais comum do que imaginamos e que infelizmente não temos muita voz ou força de mudança diante de um comportamento tão pouco humano em se tratando de um profissional que lida diretamente com o ser humano. De fato, a frieza a que se refere se deve ao ensino que tem na faculdade, aprendem tanto a cortar que acham que encontram aqui fora um pedaço de carne, sem sentimento, dor ou qualquer outra coisa. Assim como vc, eu também as vezes tento trazê-los para a realidade para pelo menos melhorarem o atendimento, mas, nós falamos e exigimos e aqueles que não podem fazer o mesmo, como fica? Beijão e apareça sempre, é muito bem-vinda!!!!

Ana Bárbara disse...

Obrigada amiga, apareço sim, claro, te adoro :)