domingo, 18 de julho de 2010

Pelo direito de ser chata

Postado em 17.03.2009
Por Anacris Maia

Dias desses estava pensando se estou ficando mais chata que o habitual ou se o famoso “semancol” anda perdendo o efeito para 90% da população. Depois de verificar que não estava na TPM e nem sofrendo de irritabilidade crônica, conclui que, o que de fato tem me deixando impaciente e intensificado minha chatice – leia-se chatice como sendo respeito, educação, bom senso – é na verdade a falta desse remedinho responsável por controlar o senso das pessoas.

Tem gente que simplesmente não entende linguagem corporal, afinal, ignora cara feia e olhares de reprovação e outras que não entendem leitura labial, já que nem falando no idioma pátrio a pessoa compreende que não estamos gostando de determinada brincadeira ou simplesmente que tal colocação é, para dizer no mínimo, inadequada. Em suma: ou a pessoa é tapada demais ou leva a vida tão na valsa que é incapaz de perceber que está invadindo o espaço do outro.

Só para citar alguns exemplos: quem ao entrar no ônibus não identificou um som estranho, mais parecido com uma colméia de abelhas, vindo de um celular cujo dono não tinha o mínimo senso de coletividade e obrigava todo mundo a ouvir música, muitas de péssimo gosto, durante todo o percurso? Não quero discutir gosto, afinal, o que é “ouvivel” para mim pode não ser para o outro. Mas o que me incomoda é por que raios esse dito cujo não coloca a droga de fone de ouvido e deixa de torturar os que estão a sua volta? Depois disso, EU SOU CHATA!

Outra coisa interessante é quando você está sentado no ônibus, normalmente em intermunicipais (tem ou não tem mais hífen?), e uma linda criancinha acompanhada de seus pais, senta no banco atrás de você e resolve fazer alongamento. Aí é um festival de chutes nos rins, pulmões, coluna... Seria uma sessão de Do-In se os pontos em questão não fossem mais espancados que pressionados. E os pais, simplesmente não percebem ou fazem que não percebem, que o simples mortal sentado à frente está tomando uma surra de pontapé.

E nessa hora, você olha pra trás, dá um sorrisinho amarelo tipo: “pivete, pára. Tem gente sentada aqui”, dá uma olhada para os pais para ver se eles notam sua existência e fazem o bendito satânico parar de te atacar e em última instância recorre a sua educação e gentileza para não ofender e diz: “por favor, você podia fazer seu filho parar de bater no banco?” Agora pergunto: isso tudo é necessário? Será que os pais não estão vendo? Pois é, eu continuo sendo A CHATA.

E gente inconveniente? Nossa, parece que o que mais tem são tipos assim. Quem já não presenciou ou foi a própria vítima de comentários maldosos? Mais um exemplo: você sabe que engordou um pouquinho, estava meio ansiosa e andou abusando no chocolate ou no outro extremo, perdeu alguns quilinhos valiosos que fazem muita diferença em quem já é magra, porque estava trabalhando demais. Você acorda, coloca uma roupa bem bonita, se maquia, ajeita o cabelo e tenta fazer com que esses detalhes não abalem sua auto-estima. Eis que então, você pisa no trabalho e escuta a fatídica frase: “Nossa, como você engordou!” ou “Nossa, você está tão magrinha!”. Pronto, todo o seu trabalho pela manhã foi por água abaixo por conta de um (a) colega que não tomou sua dose diária de “semancol”.

Em jornalismo se usa um termo chamado “legenda para cegos”, comum em fotografias. É aquela legenda que está embaixo da foto e que deveria contextualizar ou trazer uma informação extra àquela que a fotografia já está retratando, porém, o que normalmente ocorre é uma descrição da fotografia, ou seja, eu já estou vendo, então, porque diabos preciso da legenda? Partindo desse argumento defendo minha suposta chatice. Esse comentário em relação à aparência era mesmo necessário? Pôxa, todo mundo tem espelho em casa! Todo mundo sabe que engordou ou emagreceu um pouco, basta tentar vestir aquela calça jeans que ficava tão bem e agora não fecha ou que te deixava mais gostosa e agora está frouxa. Então eu repito: esse comentário era mesmo necessário? É o que eu sempre digo, se você não tem nada de útil ou agradável para falar, cale-se. Na maioria dos casos é um bem que você faz para o outro.

E gente que conta piada preconceituosa ou ofensiva e quer que eu ache graça? Desculpe-me, mas eu não acho a menor graça e eu não vou rir. Sim, sou MUITO CHATA. E pretendo continuar chata por um bom tempo. SOU CHATA com gente que rabisca livro de biblioteca pública. O livro não é seu, as idéias destacadas por quem o rabiscou não me interessam, sem contar mais uma vez com o desrespeito de algo que pertence à todos.

O filósofo Rousseau já dizia em seu Contrato Social que abrimos mão da liberdade individual e fazemos um pacto social e é a partir dele que a convivência se torna possível. Acontece que as pessoas estão simplesmente rompendo esses acordos de boa convivência e o que é pior, exigindo serem respeitadas de uma forma às avessas. Eu poderia simplesmente me acostumar com as situações citadas, mas, ao me acostumar eu estaria compactuando para extinguir de vez a gentileza e o respeito entre as pessoas.

“GENTILEZA GERA GENTILEZA”, já dizia o Profeta. Num mundo onde o respeito ao público e coletivo se esfacela, não resta mais nada além da imposição individual de uns sobre os outros. Já imaginou como seria se todos dentro do ônibus quisessem ouvir sua música sem fone de ouvido? Ninguém ouviria nada, cada um iria colocar no volume máximo possível, tornando o local insuportável. Ou seja, todo o processo de domesticação do animal humano e o contrato social de Rousseau ruiriam. Portanto, se isso é ser chata assumo plenamente minha chatice. Não compactuo com esse tipo de liberdade que inibe, obriga, humilha... Aliás, isso para mim não é liberdade é falta de respeito mesmo e assim sendo, não faço a mínima questão de ser legal.

Bem que o SUS podia fornecer nos Postos de Saúde, iria melhorar e muito a convivência que já anda tão comprometida.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Odisséia hospitalar 2

[Inédito]

Por Anacris Maia

Há um mês me vejo prostrada, debilitada com um tosse crônica persistente e resistente há mais de 5 tipos de xarope: de expectorantes a antialérgicos, alopáticos a homeopáticos. Meu corpo foi perfurado para receber analgésicos e hidrocorticóides. Há semanas venho mandando para dentro antibióticos, antiinflamatórios, anti-histamínico. Nada, absolutamente nada tem dado resultado.

Nietzsche diria que o que não te mata, te fortalece. Alheia a serenidade nietzscheana eu responderia que as únicas coisas fortes são os músculos da minha barriga e costas que forçados a contrair e expelir com toda a força aquilo que no meu corpo tem feito mal estão ficando tão tonificados que darão inveja em muita rata de academia.

Domingo foi mais um dia de hospital. Dessa vez, o Ricardo me fez companhia no chá de cadeira habitual já retratado no texto Odisséia Hospitalar. Agora, vou me ater a narrar o que vi e ouvi nos corredores do Pronto Socorro de Pindamonhangaba, interior de São Paulo, enquanto eu esperava a boa vontade dos atendentes em tirar uma radiografia do meu pulmão. Sozinha – eles não deixam entrar acompanhante – o que me restava era puxar conversa e conhecer um pouco a situação daqueles que assim como eu, estavam impotentes. Vontade de fazer um escarcéu não falta – e até iniciamos um dessa vez, com direito a chamar o supervisor daquela joça, mas, para variar, domingo o/a dito (a) cujo (a) não trabalha.

Vamos a primeira história: um senhor na casa dos 60 anos estava desde as nove da manhã dentro daquela zona médica. Já tinha tomado soro, foi medicado e também tirou algumas radiografias. Ele retorna ao raio X e diz que ficou faltando algumas radiografias, agora pasmem: o radiologista simplesmente não entende a letra do médico e consequentemente o que ele havia pedido. Começa então a palhaçada, nenhum outro médico consegue entender o que o colega havia prescrito, o fulano havia saído de seu plantão e ninguém conseguia localizá-lo. Caramba, até a veterinária do cachorro do meu namorado atende o celular num domingo à tarde!!! Por fim, depois de quase uma hora o senhor finalmente entra na sala de radiografia e suponho, consegue finalmente fazer o que é preciso.

A segunda história é de uma mãe com um bebê de uns três anos que também está desde a manhã e que por um erro do radiologista volta a sala de raio X para tirar quatro radiografias que ficaram para trás. Eu pergunto: “Por que o médico não pediu todas de uma vez?” A mãe responde: “Ele pediu, mas, o burro (isso mesmo ipsis litteris) do cara não entendeu e tirou uma só”. Bom, não culpo só a baixa escolaridade do radiologista, culpo também o pretenso intelectualismo do médico que precisa escrever com uma letra horrorosa para provar sua superioridade frente a relés mortais que terminam seus cursos superiores em média em 5 anos. Dá o que pensar, afinal é o segundo caso no dia em que o radiologista não consegue entender o que está sendo pedido.

Se a radiografia está caótica o cenário na soroterapia não é diferente. Pessoas aguardam do lado de fora, muitas visivelmente debilitadas. No celular uma senhora diz que vai embora, que não vai esperar sua companhia tomar o soro. Do outro lado, uma senhora conversa comigo e diz que não consegue mais ficar ali daquela forma e questiona a enfermeira, que com cara de b... responde que ela precisa aguardar. Enquanto estou sentada, vejo uma senhora numa cadeira de rodas parada em frente ao banheiro com sua acompanhante. Percebo que ela não precisa mais do banheiro, pois acabou de se urinar ali mesmo, tardiamente chega uma dita cuja com um avental escrito “apoio ao paciente”. Ela não precisa mais de ajuda.

Se a intenção de um hospital público é te fazer sentir um lixo, o ser mais baixo da espécie humana, um miserável digno de pena e de morte sem nenhuma morfina para diminuir a dor, então, ele consegue. Que lugar é esse que deveria ter como princípio essencial o bom acolhimento de pessoas que estão vulneráveis, cheias de dor e sofrimento? Ninguém precisa ser mais humilhado, pois ao entrarmos num hospital já sentimos nossa pequenez diante de um corpo que não responde mais da forma como gostaríamos, a doença a todo momento mostra nossa finitude e prostra nossas ações.

Onde está o humanismo na medicina? Ou será que vocês “doutores” aprendem tão bem a dissecar e cortar que tornam-se açougueiros, confundindo todos nós “pacientes” com pedaços de carne sem vida, dignidade ou sentimentos? Que espécie de médicos são esses que te atendem com uma cara de merda, que nem te cumprimentam, que nem sequer esboçam um sorriso ou mínima falsa preocupação com o seu problema? O que as faculdades de medicina estão formando?

Concordo que certa frieza e distanciamento são necessários para se ter um bom diagnóstico, mas, o que vejo não é ciência e sim indiferença, completa falta de respeito. Indiferença com quem sofre, com que procura ajuda porque acredita que está recorrendo a alguém que de fato pode ajudá-la. Desculpe se aqueles que me lêem vem um fundo dramático, mas, estou indignada, revoltada diante da atuação desses pseudo-médicos.

Lidar com o ser humano exige cuidado, esforço homérico para entender o que se passa dentro de cada um, é um trabalho exaustivo e que muito provável não seja a vocação da maioria das pessoas preocupadas em encher seus bolsos e a vida fácil. Escolher por vocação a medicina, o magistério, a psicologia, a assistência social entre outras que lidam diretamente com pessoas, implica reconhecer o desafio constante que encontrará a cada dia, ninguém falou que seria fácil e as perdas com certeza serão maiores que os ganhos, mas, para se dormir com a consciência tranqüila é preciso saber que naquele momento diante de todas as limitações foi feito todo o possível, ainda que todo o possível seja apenas um tratamento mais respeitoso.