quarta-feira, 7 de julho de 2010

Odisséia hospitalar 2

[Inédito]

Por Anacris Maia

Há um mês me vejo prostrada, debilitada com um tosse crônica persistente e resistente há mais de 5 tipos de xarope: de expectorantes a antialérgicos, alopáticos a homeopáticos. Meu corpo foi perfurado para receber analgésicos e hidrocorticóides. Há semanas venho mandando para dentro antibióticos, antiinflamatórios, anti-histamínico. Nada, absolutamente nada tem dado resultado.

Nietzsche diria que o que não te mata, te fortalece. Alheia a serenidade nietzscheana eu responderia que as únicas coisas fortes são os músculos da minha barriga e costas que forçados a contrair e expelir com toda a força aquilo que no meu corpo tem feito mal estão ficando tão tonificados que darão inveja em muita rata de academia.

Domingo foi mais um dia de hospital. Dessa vez, o Ricardo me fez companhia no chá de cadeira habitual já retratado no texto Odisséia Hospitalar. Agora, vou me ater a narrar o que vi e ouvi nos corredores do Pronto Socorro de Pindamonhangaba, interior de São Paulo, enquanto eu esperava a boa vontade dos atendentes em tirar uma radiografia do meu pulmão. Sozinha – eles não deixam entrar acompanhante – o que me restava era puxar conversa e conhecer um pouco a situação daqueles que assim como eu, estavam impotentes. Vontade de fazer um escarcéu não falta – e até iniciamos um dessa vez, com direito a chamar o supervisor daquela joça, mas, para variar, domingo o/a dito (a) cujo (a) não trabalha.

Vamos a primeira história: um senhor na casa dos 60 anos estava desde as nove da manhã dentro daquela zona médica. Já tinha tomado soro, foi medicado e também tirou algumas radiografias. Ele retorna ao raio X e diz que ficou faltando algumas radiografias, agora pasmem: o radiologista simplesmente não entende a letra do médico e consequentemente o que ele havia pedido. Começa então a palhaçada, nenhum outro médico consegue entender o que o colega havia prescrito, o fulano havia saído de seu plantão e ninguém conseguia localizá-lo. Caramba, até a veterinária do cachorro do meu namorado atende o celular num domingo à tarde!!! Por fim, depois de quase uma hora o senhor finalmente entra na sala de radiografia e suponho, consegue finalmente fazer o que é preciso.

A segunda história é de uma mãe com um bebê de uns três anos que também está desde a manhã e que por um erro do radiologista volta a sala de raio X para tirar quatro radiografias que ficaram para trás. Eu pergunto: “Por que o médico não pediu todas de uma vez?” A mãe responde: “Ele pediu, mas, o burro (isso mesmo ipsis litteris) do cara não entendeu e tirou uma só”. Bom, não culpo só a baixa escolaridade do radiologista, culpo também o pretenso intelectualismo do médico que precisa escrever com uma letra horrorosa para provar sua superioridade frente a relés mortais que terminam seus cursos superiores em média em 5 anos. Dá o que pensar, afinal é o segundo caso no dia em que o radiologista não consegue entender o que está sendo pedido.

Se a radiografia está caótica o cenário na soroterapia não é diferente. Pessoas aguardam do lado de fora, muitas visivelmente debilitadas. No celular uma senhora diz que vai embora, que não vai esperar sua companhia tomar o soro. Do outro lado, uma senhora conversa comigo e diz que não consegue mais ficar ali daquela forma e questiona a enfermeira, que com cara de b... responde que ela precisa aguardar. Enquanto estou sentada, vejo uma senhora numa cadeira de rodas parada em frente ao banheiro com sua acompanhante. Percebo que ela não precisa mais do banheiro, pois acabou de se urinar ali mesmo, tardiamente chega uma dita cuja com um avental escrito “apoio ao paciente”. Ela não precisa mais de ajuda.

Se a intenção de um hospital público é te fazer sentir um lixo, o ser mais baixo da espécie humana, um miserável digno de pena e de morte sem nenhuma morfina para diminuir a dor, então, ele consegue. Que lugar é esse que deveria ter como princípio essencial o bom acolhimento de pessoas que estão vulneráveis, cheias de dor e sofrimento? Ninguém precisa ser mais humilhado, pois ao entrarmos num hospital já sentimos nossa pequenez diante de um corpo que não responde mais da forma como gostaríamos, a doença a todo momento mostra nossa finitude e prostra nossas ações.

Onde está o humanismo na medicina? Ou será que vocês “doutores” aprendem tão bem a dissecar e cortar que tornam-se açougueiros, confundindo todos nós “pacientes” com pedaços de carne sem vida, dignidade ou sentimentos? Que espécie de médicos são esses que te atendem com uma cara de merda, que nem te cumprimentam, que nem sequer esboçam um sorriso ou mínima falsa preocupação com o seu problema? O que as faculdades de medicina estão formando?

Concordo que certa frieza e distanciamento são necessários para se ter um bom diagnóstico, mas, o que vejo não é ciência e sim indiferença, completa falta de respeito. Indiferença com quem sofre, com que procura ajuda porque acredita que está recorrendo a alguém que de fato pode ajudá-la. Desculpe se aqueles que me lêem vem um fundo dramático, mas, estou indignada, revoltada diante da atuação desses pseudo-médicos.

Lidar com o ser humano exige cuidado, esforço homérico para entender o que se passa dentro de cada um, é um trabalho exaustivo e que muito provável não seja a vocação da maioria das pessoas preocupadas em encher seus bolsos e a vida fácil. Escolher por vocação a medicina, o magistério, a psicologia, a assistência social entre outras que lidam diretamente com pessoas, implica reconhecer o desafio constante que encontrará a cada dia, ninguém falou que seria fácil e as perdas com certeza serão maiores que os ganhos, mas, para se dormir com a consciência tranqüila é preciso saber que naquele momento diante de todas as limitações foi feito todo o possível, ainda que todo o possível seja apenas um tratamento mais respeitoso.

Um comentário:

Cobra Fumante disse...

Se segura prefeitura, secretario da saude, governancia etc etc... de Pinda.. A cobra vai fumar e ela não pega cancêr....
Temos fotos e videos que comprovam a INEFICIENCIA E A INEFICACIA deste antro que é a "nossa" SAUDE..

Em tempo aos FDP´s acima, quando ficarem doentes vão ser atendindos no SUS e digam o que acham.