quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Sobre conselhos ou a falta deles

[Inédito]

Por Anacris Maia

Sempre me considerei melhor ouvinte que boa conselheira, não porque dou “maus” conselhos ou porque falo coisas nada a ver, mas, porque acredito que conselhos são uma forma de definir uma situação sob um único viés. Em O Existencialismo é um Humanismo, o filósofo francês Jean Paul Sartre (1905 – 1980), diz que quando escolhemos alguém para nos aconselhar já sabemos que tipo de resposta teremos e normalmente o escolhemos para confirmar nossa resposta, ou seja, já sabemos o que fazer, já nos comprometemos antes conosco e só esperamos o aval de alguém.

Outra coisa que me incomoda em conselhos é essa coisa preto no branco. Não dá para a gente tomar decisões que mudam nossa vida, que nos farão sofrer – ainda que essa dor seja necessária para nos libertar – pensando sob a lógica do “pau é pau, pedra é pedra”. Entre esse preto no branco existem variações de cinzas, existem coisas não ditas, omitidas seja por vergonha, seja por medo de julgamento. O fato é que um conselheiro nunca sentirá verdadeiramente o que o outro está sentindo.

Também desconfio de pessoas com respostas pra tudo, sempre muito ágeis de pensamento. Acho que quem tem resposta rápida não sabe ouvir, está com tanta pressa de palpitar que esqueceu-se da compaixão, da empatia, do colocar-se no lugar do outro. Ou você nunca teve a sensação de que é fácil resolver os problemas dos outros, mas, difícil resolver os seus? Falar para o outro largar um emprego e partir para outra é fácil, difícil é compreender seus medos, suas inseguranças, suas incertezas. Dizer para abandonar um relacionamento em frangalhos é fácil, difícil é compreender que existem vínculos, histórias que a pessoa talvez ainda não queira abrir mão ou queira resgatar. Quem sabe exista até amor.

Cair em clichês também é outro risco. Além do tipo “olhe para dentro de você. Você sabe o que fazer” outro que me mata é “estarei rezando por você”. Caramba! Meu problema é concreto, palpável, real, portanto, a solução não pode ser metafísica. Porém, tem clichês que carregam um fundo de verdade ainda que odiemos ouvir isso quando estamos passando por um momento de dor, é aquele de que “o tempo dará conta de tudo”. E eu acredito nesse poder irrefreável do tempo, ainda que naquela situação a gente só queira ser paralisada por ele e voltar a viver quando a situação melhorar.

E o cúmulo do egoísmo então? Você chega para falar com um amigo sobre alguma situação e a conversa vira uma competição para ver quem é o mais desgraçado. Você fala sobre sua dor e o outro retruca “a sua é fichinha perto da minha”. Minha resposta para essa ação é uma só: “sei que existem inúmeras dores no mundo, mas, hoje meu amigo, só hoje, a minha é a pior de todas e é insuportável, porque sou eu quem está sentindo”. Essa resposta pode parecer intolerante e egoísta, mas, a verdade é que é insuportável pessoas que só conseguem olhar para elas mesmas, sem contar que não acredito nesse papo de olhar a desgraça do outro para se sentir um pouco melhor.

Agora, se egoísmo é o fim, julgar o outro é o Top 10 da lista. Sobre isso, Nando Reis tem uma frase muito boa: “é fácil culpar os outros, mas, a vida não precisa de juízes a questão é sermos razoáveis”. Quem pode ser tão super homem / mulher a ponto de julgar as ações de alguém, dizer com o dedo em riste se agiu certo ou não? Será que é tão difícil compreender que cada um tem uma história, seus motivos, suas verdades? Muitas vezes o outro já está arrasado e sofrendo e tudo que precisa é de um bom ouvinte, mas, acaba encontrando um algoz que só piora sua situação.

Conselhos, independente de bons ou maus, precisam ser refletidos para demonstrar o mínimo de respeito por aqueles que nos procuraram para conversar sobre determinada situação. Eu nunca vou ter a resposta na hora, eu preciso ouvir, mas, além disso eu preciso sentir, preciso compreender. Por tudo isso, o único conselho que eu acredito e a única prova real de amizade para mim é quando encontro um olhar de amparo, um ouvido que ouça, braços que confortem e ombros que apóiem. Não quero respostas sobre como agir, nem como viver, não quero me sentir sozinha, quero me sentir amada independente das falhas e limitações. Acredito que quando sentimos isso verdadeiramente, o silêncio vale mais do que mil palavras descompromissadas.
Nota: O nome da música do Nando Reis,
da qual me referi no texto é Minha Gratidão é uma Pessoa.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Romantismo, sempre ele!!!

[Inédito]

Por Anacris Maia

Nove de cada dez mulheres que eu conheço reclamam da falta de romantismo de seus namorados, maridos ou rolos. Antes que as precipitadas, emancipadas, feministas, modernosas e afins, leiam romantismo com a visão ingênua de príncipe encantado e comece seu discurso pró liberação feminina eu explico: falta de romantismo aqui tem mais a ver com cumplicidade, zelo, respeito, atenção e parceria do que com declarações de amor fantásticas do tipo avião espalhando pétalas de rosas na nossa casa, puxando uma faixa com os dizeres: “Fulana, EU TE AMO!!!”

E eu confesso que faço parte desse grupo nove entre dez. Por experiência e por observação, tenho identificado que de fato anda faltando um pouco de finesse para os homens. Não sei se somos nós que nos emancipamos demais e agora eles acham que estão lidando com uma réplica mais bem feita que o original de seus amigos ou se o fato de não sermos mais mocinhas tão delicadas e ingênuas os façam pensar que não gostamos mais de certos cuidados e mimos.

O que os homens ainda não compreenderam é que independente da força que expressamos e da autonomia que adquirimos continuamos a buscar um colo no final do dia para nos aconchegarmos depois de um dia exaustivo de trabalho. Outra coisa que eles ainda não perceberam é que numa sociedade como a nossa onde todos são iguais e somos tratados como seres pasteurizados, esperamos de pelo menos quem a gente ama um pouco da sensação de ser única e especial.

Outra coisa que nos cansa é a falta do “olhar de novidade” que vocês perdem quanto mais tempo ficam conosco. Se antes despertávamos a curiosidade e instigávamos os sentidos, depois de alguns anos de relacionamento vocês nos olham como se já tivessem nos descoberto. Como se a pessoa que vocês conheceram anos atrás é exatamente a mesma de agora! Essa presunção masculina de nos determinar faz com que muitos homens, fixados no momento em que nos conheceram, não consigam perceber as mudanças e a mulher que constantemente nos tornamos.

Quer ver outra reclamação comum? Descuido. Pois é, todo homem acha que mulher só se conquista uma vez, ou seja, quando está em início de namoro. Já perceberam que homem em início de namoro é perfeito? Manda flores, te torpedeia de uma em uma hora, liga para dizer que está com saudades, te convida para ir ao cinema numa segunda-feira só porque não agüenta esperar até o final de semana para te ver, enfim, é uma maravilha. Esse é o sonho também de dez de cada dez mulheres.

Só que tempo vai, tempo vem, chega uma hora que ficar fazendo tudo isso cansa. E então se antes eles nos sufocavam, agora deixam a gente livre como papel no vento... Ah, que saudades do início de namoro! Outro conselho comum é “início de namoro é ótimo! Curta bastante!” Mas, o problema é justamente esse: a gente curte tanto, que depois fica com saudades...

É óbvio que os relacionamentos mudam com o tempo e é ótimo que isso aconteça, afinal, mostra que o casal está amadurecendo junto. Porém, por que normalmente essa mudança significa diminuição de afeto e romantismo? Afinal, supõe-se que um casal que se mantém junto depois de tanto tempo seja por amor e não por acomodação ou medo de solidão.

Uma relação precisa sim, de uma dose de romantismo, de sedução. Sabemos que não será assim todos os dias e em todos os momentos, mas, acredito que vale a pena reservar alguns dias do ano para celebrar o amor, para aquecer a relação. Se acomodar é aceitar menos do que se merece e se chegou a esse ponto, acho que é o momento de partir para outra, arranjar outros amores. E isso, diferente do que muitos pensam, não é ser volátil é tentar ser feliz.

Acredito que quando há amor, paixão e entrega gostamos de conquistar o outro no dia-a-dia, com detalhes: uma comidinha gostosa preparada por nós mesmas, um bilhetinho carinhoso pregado na geladeira desejando um excelente dia, colocar um Sonho de Valsa na pasta do namorado, enfim, qualquer gentileza que mostre ao outro o quanto ele é especial.

Quando nos esquecemos desses detalhes e pensamos que o outro tem bola de cristal ou alguma capacidade premonitória de adivinhar o quanto é amado estamos perdendo um tempo precioso de declarar aquilo que sentimos e infelizmente a maioria das relações acabam pelo infindável e tedioso silêncio dos dias comuns do que pelas acaloradas brigas que terminam em tórridas noites de amor.
Créditos das Fotografias
Foto 1: O beijo do Hotel de Ville, Paris, 1950, Robert Doisneau
Foto 2: O beijo - Boulevard Diderot, , Paris, 1969, Henri Cartier-Bresson
Foto 3: O beijo em Times Square, Nova Iorque, 1945, Alfred Eisenstaedt

domingo, 1 de agosto de 2010

Mulheres são chatas, homens são teimosos

Publicado em 28.03.2009
Por Anacris Maia

Sejamos sinceras! Vamos parar de bancar a vítima, a pobre coitada, a incompreendida e assumir de uma vez por todas o posto que nos cabe: somos chatas. Muito chatas. Exigimos dedicação 24 horas/dia, queremos ser paparicadas, mimadas, endeusadas. Ainda se não bastasse temos memória de elefante, o que pode ser considerado uma dádiva ou maldição, depende da perspectiva de cada um. E o interessante nisso tudo é que além da memória gigantesca, ela também é seletiva: esquecemos com facilidade as demonstrações de afeto se por alguma razão, em algum dia ou momento da relação, o namorado (ou qualquer outra definição) falou algo que nos incomodou, por exemplo, “gosto de loiras”. E você é morena! Obviamente que este é um exemplo simples, cada leitora com sua própria vivência se remeterá a um outro exemplo semelhante.

Independente de preferências – e todas nós temos as nossas – o fato é que basta uma única palavrinha mal colocada e interpretada para virar um fantasma rondando a relação. E esse fantasma será chamado todas as vezes que nos sentirmos ameaçadas, pouco valorizadas e afins. Um segredinho: no fundo, fazemos isso para fazê-los sentirem culpados. E a chatice continua: somos repetitivas e também provocativas. Adoramos insinuar situações em que vocês sentirão ciúmes ou dizer que vocês não são os únicos a perceberem nosso charme. Se ficarem com raiva, nosso objetivo finalmente foi alcançado. É como a música da Adriana Calcanhoto “é pra ver se você olha pra mim...” Pois é, quebramos xícaras, escrevemos nos muros, fazemos qualquer coisa para chamar um pouco à atenção de vocês.


Já reconhecemos que somos chatas e assumimos nossa parcela de culpa nas brigas. Assumimos também nossa carência, gostamos de exclusividade, de nos sentirmos única, amada, especial. Os homens, até tentam – alguns mais que outros – corresponder a tanta expectativa, mas, somos insaciáveis e também um pouco míopes. E como normalmente as demonstrações de afeto masculinas são completamente ou quase sempre diferentes do que esperávamos, não percebemos o esforço que os pobrezinhos, vez ou outra, fazem por nós.

Mas, chega de entregar nosso ouro. Já falei muito mal de nós mesmas e nós não somos as vilãs da história. Se pecamos na relação por chatice, os homens pecam por teimosia, aliás, sem ofensas – afinal, amamos vocês – o ditado “teimoso como uma mula” lhes cai muito bem. Quando vocês empacam, empacam mesmo! O “não” é NÃO mesmo, com letras maiúsculas e não adianta a gente fazer beicinho, chantagiar, chorar, terminar... Vocês são inatingíveis, inacessíveis.

Está feito então o maior ruído na comunicação homem – mulher. É a luta entre o argumento lógico sobre algo completamente ilógico! Vocês querem que a gente entenda o NÃO como uma simples necessidade de espaço e que não tem nada a ver conosco. Porém, algumas vezes, entendemos como rejeição. O problema surge quando de fato precisamos da companhia de vocês e vocês inventam de ficar sozinhos. Puxa, se a nossa pseudo-manha é incompreensível para vocês, a falta de sensibilidade e tato de vocês é incompreensível para nós. E ficamos nesse cabo de guerra medindo sabe-se lá o quê, com ambos sofrendo um desgaste que não vai levar a lugar algum.

Se de um lado nós somos mimadas e carentes, os homens por outro, querem ter a última palavra. Em suma, a birra existe em ambos os lados. E o que é pior, se estabelece uma competição onde ganha aquele que não cede. Só que relacionamento não é prova de resistência (e não estou falando em BBB). Ninguém tem nada a perder cedendo um pouco. O que acontece é que infelizmente estamos tão envolvidos em nós mesmos – homens e mulheres – que não conseguimos olhar o outro com o mesmo olhar que ele está tendo de si mesmo.

Por que é tão difícil acreditar que o fato deles não quererem nos ver seja mesmo apenas vontade de ficar um pouco sozinho? Por que temos que ficar girando em torno de pensamentos do tipo: “ele não me quer”, “a relação está perdendo a graça”, “ele deve ter outra mulher ou conhecido alguém”. Como disse Freud, “às vezes, um charuto é apenas um charuto”. Às vezes, vontade de ficar sozinho é só vontade de ficar sozinho.

E os homens por sua vez, por que são tão turrões? O que custa ceder um pouco e mimar a namorada? Tudo bem que sob o seu ponto de vista, a companheira é que está “alucinando”, exagerando... Mas, ela é sua namorada. Independente de quem tem razão ou não, não passa pela cabeça de vocês que todo esse “drama” pode ser uma reação? Um sinal? E vocês têm uma capacidade de fazer exatamente o contrário daquilo que a gente precisa... Acreditem, o que vocês pensam ser manha é na verdade pura necessidade de companhia, de um colo, de alguém em quem confiar.

Diante desse impasse todo, falar em equilíbrio é sugerir o impossível. Aliás, a proposta nem é essa. Hoje se superestima o equilíbrio, porém, relações equilibradas impossibilitam o crescimento da relação e dos dois. O conflito é necessário para que conheçamos o outro e a gente mesmo. Acredito que num cenário como este o melhor mesmo é a paciência e ter também a consciência de que o outro “está” assim e que ele não “é” assim. Outra sugestão é se lembrar da pessoa por quem você se apaixonou; voltar-se para aquilo que o outro tem e que te conquistou. As diferenças existem, as visões de mundo são peculiares, então, por que tentar igualar ou tiranizar? A melhor prova de amor que podemos dar ao outro é amá-lo do jeito que ele é. E no fundo não é na verdade tudo o que todo mundo quer?


“Desejamos ser compreendidos, porque desejamos ser amados,
e desejamos ser amados, porque amamos”. (Marcel Proust)