domingo, 1 de agosto de 2010

Mulheres são chatas, homens são teimosos

Publicado em 28.03.2009
Por Anacris Maia

Sejamos sinceras! Vamos parar de bancar a vítima, a pobre coitada, a incompreendida e assumir de uma vez por todas o posto que nos cabe: somos chatas. Muito chatas. Exigimos dedicação 24 horas/dia, queremos ser paparicadas, mimadas, endeusadas. Ainda se não bastasse temos memória de elefante, o que pode ser considerado uma dádiva ou maldição, depende da perspectiva de cada um. E o interessante nisso tudo é que além da memória gigantesca, ela também é seletiva: esquecemos com facilidade as demonstrações de afeto se por alguma razão, em algum dia ou momento da relação, o namorado (ou qualquer outra definição) falou algo que nos incomodou, por exemplo, “gosto de loiras”. E você é morena! Obviamente que este é um exemplo simples, cada leitora com sua própria vivência se remeterá a um outro exemplo semelhante.

Independente de preferências – e todas nós temos as nossas – o fato é que basta uma única palavrinha mal colocada e interpretada para virar um fantasma rondando a relação. E esse fantasma será chamado todas as vezes que nos sentirmos ameaçadas, pouco valorizadas e afins. Um segredinho: no fundo, fazemos isso para fazê-los sentirem culpados. E a chatice continua: somos repetitivas e também provocativas. Adoramos insinuar situações em que vocês sentirão ciúmes ou dizer que vocês não são os únicos a perceberem nosso charme. Se ficarem com raiva, nosso objetivo finalmente foi alcançado. É como a música da Adriana Calcanhoto “é pra ver se você olha pra mim...” Pois é, quebramos xícaras, escrevemos nos muros, fazemos qualquer coisa para chamar um pouco à atenção de vocês.


Já reconhecemos que somos chatas e assumimos nossa parcela de culpa nas brigas. Assumimos também nossa carência, gostamos de exclusividade, de nos sentirmos única, amada, especial. Os homens, até tentam – alguns mais que outros – corresponder a tanta expectativa, mas, somos insaciáveis e também um pouco míopes. E como normalmente as demonstrações de afeto masculinas são completamente ou quase sempre diferentes do que esperávamos, não percebemos o esforço que os pobrezinhos, vez ou outra, fazem por nós.

Mas, chega de entregar nosso ouro. Já falei muito mal de nós mesmas e nós não somos as vilãs da história. Se pecamos na relação por chatice, os homens pecam por teimosia, aliás, sem ofensas – afinal, amamos vocês – o ditado “teimoso como uma mula” lhes cai muito bem. Quando vocês empacam, empacam mesmo! O “não” é NÃO mesmo, com letras maiúsculas e não adianta a gente fazer beicinho, chantagiar, chorar, terminar... Vocês são inatingíveis, inacessíveis.

Está feito então o maior ruído na comunicação homem – mulher. É a luta entre o argumento lógico sobre algo completamente ilógico! Vocês querem que a gente entenda o NÃO como uma simples necessidade de espaço e que não tem nada a ver conosco. Porém, algumas vezes, entendemos como rejeição. O problema surge quando de fato precisamos da companhia de vocês e vocês inventam de ficar sozinhos. Puxa, se a nossa pseudo-manha é incompreensível para vocês, a falta de sensibilidade e tato de vocês é incompreensível para nós. E ficamos nesse cabo de guerra medindo sabe-se lá o quê, com ambos sofrendo um desgaste que não vai levar a lugar algum.

Se de um lado nós somos mimadas e carentes, os homens por outro, querem ter a última palavra. Em suma, a birra existe em ambos os lados. E o que é pior, se estabelece uma competição onde ganha aquele que não cede. Só que relacionamento não é prova de resistência (e não estou falando em BBB). Ninguém tem nada a perder cedendo um pouco. O que acontece é que infelizmente estamos tão envolvidos em nós mesmos – homens e mulheres – que não conseguimos olhar o outro com o mesmo olhar que ele está tendo de si mesmo.

Por que é tão difícil acreditar que o fato deles não quererem nos ver seja mesmo apenas vontade de ficar um pouco sozinho? Por que temos que ficar girando em torno de pensamentos do tipo: “ele não me quer”, “a relação está perdendo a graça”, “ele deve ter outra mulher ou conhecido alguém”. Como disse Freud, “às vezes, um charuto é apenas um charuto”. Às vezes, vontade de ficar sozinho é só vontade de ficar sozinho.

E os homens por sua vez, por que são tão turrões? O que custa ceder um pouco e mimar a namorada? Tudo bem que sob o seu ponto de vista, a companheira é que está “alucinando”, exagerando... Mas, ela é sua namorada. Independente de quem tem razão ou não, não passa pela cabeça de vocês que todo esse “drama” pode ser uma reação? Um sinal? E vocês têm uma capacidade de fazer exatamente o contrário daquilo que a gente precisa... Acreditem, o que vocês pensam ser manha é na verdade pura necessidade de companhia, de um colo, de alguém em quem confiar.

Diante desse impasse todo, falar em equilíbrio é sugerir o impossível. Aliás, a proposta nem é essa. Hoje se superestima o equilíbrio, porém, relações equilibradas impossibilitam o crescimento da relação e dos dois. O conflito é necessário para que conheçamos o outro e a gente mesmo. Acredito que num cenário como este o melhor mesmo é a paciência e ter também a consciência de que o outro “está” assim e que ele não “é” assim. Outra sugestão é se lembrar da pessoa por quem você se apaixonou; voltar-se para aquilo que o outro tem e que te conquistou. As diferenças existem, as visões de mundo são peculiares, então, por que tentar igualar ou tiranizar? A melhor prova de amor que podemos dar ao outro é amá-lo do jeito que ele é. E no fundo não é na verdade tudo o que todo mundo quer?


“Desejamos ser compreendidos, porque desejamos ser amados,
e desejamos ser amados, porque amamos”. (Marcel Proust)

11 comentários:

Bárbara disse...

Oi amiga! Gostei do que vc postou! Então, comentarei sobre o que escreveu sobre sermos chatas, rs
Acho que depende muito isso, por exemplo, no caso do parceiro colocar uma palavra mal colocada varia muito, porque muitas vezes certas coisas são desnecessárias a dizer, vc disse que queremos fazer ciúmes a eles e quando atingimos isso nos realizamos, então, eles também fazem ciúmes, eles também começam com provocações, não é só a mulher que faz isso, eu acredito que tem coisas que não são necessárias a se dizer ao parceiro, sendo homem ou mulher, ao menos que eu queira chateá-lo de fato, tem coisas que são perdoáveis, claro, e se tais coisas são perdoáveis a relação flui bem, agora tem coisas que se diz ao outro que tem que pesar mesmo na balança para ver se vale a pena continuar com aquela relação! Se quero amor daquela pessoa pode até ser charmoso ciuminho, desde que eu saiba que não traumatizarei quem eu amo, falar aquilo que sei que a pessoa irá de fato se magoar enquanto ela se vangloria com o que conseguiu fazer, que é te deixar chateado, acho bom pensar se é bom mesmo de fato ficar com essa pessoa, mesmo porque tem pessoas bem legais no mundo e que não irão fazer isso, mas dependendo do que for é perdoável, mas antes de qualquer coisa, ambos devem estar seguros de si para não cair em provocações! E viva o amor e paz, unida claro a paixão ardente, mas sem traumas!

Bjão

Anacris Maia disse...

Concordo contigo, Bá. Na verdade, escrevi o texto pensando numa forma engraçada de abordar os ruídos de comunicação que permeiam a relação homem-mulher. Claro que há exceções e também variáveis.
Sem dúvida, pessoas que ferem o outro por prazer, para denegrir, subjulgar e inferiorizar não merecem companhia e infelizmente, muitas pessoas por carência ou medo da solidão se sujeitam a alguém que só a diminuem.
Amor, respeito e admiração são coisas que caminham juntas e servem de estímulo para cada vez mais sermos quem de fato somos e gostarmos de quem somos, já que tem alguém teoricamente de fora que gosta da gente como a gente é. No mais, se estamos em uma relação que acrescenta nada, melhor mesmo é seguir sozinho e buscar outras formas de crescimento e felicidade, afinal, há muita coisa no mundo para se fazer e pessoas incríveis para se conhecer. Beijão.

Anônimo disse...

[Carine ] [carinepsi@hotmail.com]
Incrível como vc descreveu tão bem esse ruído na comunicação, amiga! Saudadonas!!!

01/04/2009 01:30

Anônimo disse...

[Paulo Henrique] [pauli.nho@ig.com.br]
Cris, adorei o texto, me fez lembrar muito nossas conversas! É um desafio muito grande a relação homem mulher, mas se não fosse perderia a graça. A relação conflituosa nos faz crescer, mas é preciso muita paciência e amor para não deixar tudo se perder. Eh vida dura! Eh vida boa! Um abraço e um beijo!

28/03/2009 22:10

Daniel Alabarce disse...

Putz, cris!!!! Eu to embasbacado aqui! É exatamente isso que acontece!!! E eu que pensava que fosse só comigo!

Vc tem uma destreza pra descrever este tipo de coisa, é admirável uma mulher reconhecer isso (será que algumas mulheres não podem ficar com raivinha de vc?) rsrsrs

Sabe o que eu vejo também nas mulheres, é que tudo o que ela faz "para o homem" (tipo se arruma, fica cheirosa) no fundo é para fazer a outra mulher ficar "morrendo de inveja", sei lá, competiçãozinha feminina! kkk


Meus profundos parabéns ao texto! a vc!

E sim, somos muito turrões, beiramos mesmo o extremo! Mas ainda acreditamos que somos flexíveis!! hjahaha

parece que nunca vai acabar né?

abraços, saudades!

Anônimo disse...

olá Anacris,

Eu sou uma amigo de Daniel Alabarce, afinal foi ele que me passou o link de seu blog. Bom n sei se vc quer "ouvir" isso, mais vc é uma profunda conhecedora desse assunto! Seu post descreve exatamente o que eu achava ser incomum, mais estava enganado. rsrsrs

Parabéns pela pesquisa do comportamento do homem em geral, afinal isso são para poucos, se considere com sorte.

Obrigado por abrir os meus olhos, e por fazer as mulheres a entender seu proprios comportamentos.

Me tornei seu fã!

Eliabe Gamaliel

Bárbara disse...

Esse artigo está quente amiga, e eu novamente vou comentar, hihi

"E os homens por sua vez, por que são tão turrões? O que custa ceder um pouco e mimar a namorada?"

Então, parece que isso acontece bem mais entre os homens, tem mulheres assim também, mas os homens parecem ser um número maior em fazer isso, então, em certos casos a mulher recebe muito afeto, compreensão e deseja mais e mais, isso é uma coisa, mas em muitas situações a outra pessoa, que no caso a ser analisado aqui é o homem, parece ser a figura orgulhosa (isso também vale para mulheres assim), é tão estranho, mas é assim, é como se a pessoa fosse como a rainha de copas, ela, figura dominante, com seus súditos sempre fazendo suas vontades, inclusive o rei que não tem autoridade, sempre pronto a fazer suas vontades, e se ela não gosta de alguém ou qualquer de seus súditos não lhe obedecem ou comentem 'pequeninos' erros ela diz: "Corrrrrteeemmm a cabeça", ela tem o direito de tudo que pode de bom, já seus súditos tem que se contentar em serem súditos e em obedece-la. Não são todos os casos que são assim, existem casos e casos, mas o conto da rainha de copas é o que permeia muitas relações, mesmo que isso seja de forma inconsciente, como a pessoa achar que que não faz isso e que é totalmente diferente disso, bom, se existem pessoas dispostas a não receber nada e a serem os súditos da rainha de copas (que deveria ser a rainha de espadas, rs), isso existe, e a guerra entre os sexos talvez acabe quando ambos ententerem as necessidades do outro sem competição e egoísmos, sair da própria convicção, das próprias idéias nem sempre é fácil, se ele acha que não deve agradá-la por n motivos e sabendo que ela se agradaria com tais atos, é uma relação em desarmonia total, credo, que horror, agora, se a pessoa doa sem querer receber e se satisfaz com isso, quem sou eu para julgar, cada um sabe de si!

Te amo amiga
Beijão

Anacris Maia disse...

Dani... a guerra dos sexos é eterna. Quanto a tal "flexibilidade" masculina é mesmo quase um mito. Quanto a competição feminina o livro Mito da Beleza tem uma teoria interessante: a beleza, é o último grilhão que prende a mulher; ela já se libertou sexualmente, politicamente, profissionalmente, mas, ainda vive presa na aparência. Como vivemos numa sociedade masculina para não perder o poder surge então esse controle sobre a mulher, aí entra o mito. A moda, as revistas femininas e a mídia em geral pregam um comportamento a ser seguido e inconscientemente seguimos esses padrões - afinal, nenhuma mulher quer se sentir "feia", pouco desejada, etc - portanto, a rivalidade entre as mulheres, essa coisa de se "vestir para outra" como vc escreveu acaba agindo como uma forma de apartar as próprias mulheres, impedindo que nós sejamos solidárias umas com as outras e nos unamos para se libertar desse padrão hediondo imposto atualmente. A rivalidade é uma forma de impedir qualquer ideologia ou movimento feminista que vá contra o sistema.
Ainda estou lendo o livro, mas, em breve pretendo postar uma resenha/artigo falando um pouco sobre a obra, que além de propor uma discussão interessante sobre o universo feminino gera também muita indignação. Abraço, também estou com saudades de vc...

Anacris Maia disse...

Pôxa Eliabe, que delícia receber um comentário "novo" - de alguém que até então, não fazia parte do grupo de conhecidos/amigos do blog. Seja bem-vindo e espero que apareça mais vezes e contribua com sua opinião sempre que desejar.
Então, por enquanto, minha pesquisa ainda está mais no campo do empírico que do teórico mesmo, são conversar com amigos, dilemas pessoais e dúvidas de relacionamentos que me motivam a escrever, me observar e observar o outro. Mas, confesso que com algumas leituras já estou pensando em transformar essas informações em algo mais sério...rsrsrsrs. Quem sabe!
Quanto ao comportamento feminino ser mais comum do que vc imaginava, de fato é verdade. É claro que algumas mulheres disfarçam melhor que outras, mas, todas tem suas carências, seus desejos, suas falhas. Mulher é um ser complexo e no meu caso inconstante.
Então, a dica é da próxima vez que se ver em situação semelhante pense que não é só com vc, ou vc que se envolve com as "mulheres erradas", todas nós, sem exceção, temos nossas chatices. Aquela garota bacana e sem grilos só existe mesmo em filme, igual aos homens românticos, sensíveis e "flexíveis" (usando a fala do Dani)...rsrsrs. Grande abraço e volte sempre!!!

Anacris Maia disse...

Muito bem lembrado a Rainha de Copas e seu significado Bá. De fato, existem pessoas com esse perfil, que fazem do outro capacho, que acreditam que estão numa relação para serem servidas, aceitam a doação do outro, mas, são incapazes de se doar. É claro que esse tipo de amor é patologico e quem aceita permanecer numa situação assim, merece uma terapia (tanto o capacho quanto o dominador), afinal, o capacho merece se valorizar um pouco mais e não aceitar migalhas e o dominador, precisa aprender a ceder e a se doar, afinal esse é um tipo que não sabe amar...
É como escrevi, existe uma diferença muito grande em indiferença e carência e a gente só consegue saber quando é uma coisa ou outra quando nos conhecemos um pouco melhor. Estou escrevendo um outro texto sobre esse tema e logo vou publicá-lo no blog. Beijão, te amo!

Ri disse...

Um segredinho: no fundo, fazemos isso para fazê-los sentirem culpados.

Aff... vocês são fod... mesmo!