quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Diário de Viagem: Ipojuca/Porto de Galinhas - PE



Por: Anacris Maia

Essa é a primeira parte do texto contando a viagem que Ricardo e eu fizemos para Ipojuca/Porto de Galinhas – PE na semana do feriado de 7 de setembro. Decidi fazer assim para não ficar chato nem cansativo na hora de ler, nos próximos dias teremos mais posts.

Quem comprou o Guia Quatro Rodas 2010 – Porto de Galinhas, deve ter se maravilhado com as imagens das piscinas naturais – até sonhou em mergulhar junto aos peixinhos. Além das piscinas, praias desertas com águas calmas e tranqüilas devem ter feito você acreditar que havia encontrado seu paraíso particular. Pois bem, essas imagens e orientações do guia, motivaram o Ricardo e eu a conhecer in loco a praia “mais linda do Brasil”, eleita oito vezes consecutiva pela revista Viagem.

Antes de falar sobre nosso passeio e experiência algumas coisas precisam ficar claras: nosso período de viagem foi de 04 a 10 de setembro, portanto, pegamos um feriado. Acreditando que após terça-feira, dia 07, a cidade ficaria mais tranqüila, evitamos reclamar do vuco-vuco que estava na cidade e do verdadeiro piscinão que as praias se tornaram devido ao número elevado de turistas. Nossa esperança era que na quarta-feira o fluxo diminuísse e que pudéssemos desfrutar do sossego das praias tão bem “vendido” pela revista.
Minha intenção neste texto não é de forma nenhuma desmerecer a natureza e beleza das praias de Pernambuco, mas, também não estou sendo paga para “vender” o local, portanto, falarei honestamente sobre minhas impressões e comentários que Ricardo e eu fizemos durante o período que ali estivemos. Gostaríamos de ter lido algo assim, pelo menos iríamos mais bem preparados. Nós tínhamos grandes expectativas com essa viagem e estávamos deslumbrados pelas imagens que vimos. Amo praia, natureza e animais e confesso que o que vi em Ipojuca/PE, município onde se encontra a praia de Porto de Galinhas, me deixou um pouco chateada, no mínimo.

Primeiro vamos falar sobre preservação. Eu não sou formada em Biologia, mas, não precisa ser um especialista, nem muito inteligente para entender que aqueles corais são organismos vivos que servem de casa para outros seres vivos, em especial ouriços do mar, algas, estrelas do mar e outras espécies de vida marinha que eu desconheço. Bem, chegando à praia Porto de Galinhas, numa maré baixa – depois explico o lance das marés – conseguimos ir caminhando pela água, sim, como a travessia do mar vermelho, (desculpe a analogia, mas, não pude evitar) até às piscinas naturais.
Na minha cabecinha ecológica eu imaginei que fosse proibido andar pelos corais, que são imensos, até porque já tinha lido a respeito e sabia que eles estavam “morrendo” justamente por serem pisoteados por turistas. Mas, antes de subir nos corais, fiscais distribuem uma pulseirinha, que até agora não entendi para que serve. Se é para controlar o fluxo de turistas não adiantou nada, quando foi liberada a passagem uma boiada de gente ensandecida, como se tivessem aberto as portas de alguma loja em liquidação começou seu passeio... E as cordas que servem para sinalizar, dificilmente são respeitadas.

Aquilo me incomodou tanto, que eu não queria ficar ali. Não queria colaborar com aquela destruição. E para me emputecer ainda mais, quando estou saindo dos corais me deparo com uma mulher, que deve ser lesada ou songa, chutando um bicho e perguntando se é vivo. Puta que pariu!!! Me perdoe os que não falam palavrão, mas, não dá pra segurar! Nessa hora me pergunto por quê ouriços do mar não são animais violentos que voam em turistas assim que pisam na casa deles... Nem tudo que Deus faz é perfeito, que pena!

Ah, outro detalhe: demos uma esticadinha até Maragogi/AL e diferente de Porto, recebemos muitas informações e dentre elas a de não pisar nos corais, porque além obviamente de nos machucar, estaríamos destruindo organismos vivos. Nas palavras do guia que nos acompanhou no Catamarã: “nós preservamos os corais e não fazemos como em Porto de Galinhas, que já tá quase tudo morto de tanto turista ficar pisando”. IBAMA, Sea Shepherd, WWF, Greenpeace, vale a pena dar uma olhadinha, uma pesquisada mais profunda e ver se o que é feito lá, póóóde.

MARÉS

Eu não sei lá no Nordeste, mas, nós do Sudeste gostamos de ficar de molho na água até o sol sumir... Eu adoro ficar na água o tempo todo até virar uma ameixa enrugada. Para quem procura longos banhos de mar, talvez, as praias de Ipojuca não sejam assim tão recomendadas e eu explico por quê.

Maré é comum em todas as praias, mas, no caso do Nordeste elas devem ser consultadas antes mesmo de fazer as malas para embarcar. É a tábua de marés que indica o período em que as marés estão mais baixas e adequadas para se ver as piscinas naturais. Ansioso e precavido como é, o Ricardo verificou isso um mês antes da viagem e escolheu uma semana considerada excelente para se visitar as praias.

Até aqui, tudo tranqüilo. O fato de você não acordar no horário em que a maré está mais propícia para ver as piscinas, não significa que você vai ficar sem um banho de mar, concorda? Ledo engano. Se você perdeu o horário da maré baixa, não só perdeu de ver as piscinas naturais como perdeu também um dia de praia. Quando a maré volta a subir, o mar invade tudo numa velocidade e violência que nem os mais corajosos se arriscam. Detalhe: a maré baixa dura de duas a três horas no máximo.

Desconhecendo o tsunami pós-maré baixa, Ricardo e eu nos preparamos para conhecer a praia de Muro Alto, onde o paredão de corais forma uma piscina natural tranqüila e transparente (pelo menos nas fotos). Estávamos cientes de que estávamos indo fora do horário da maré baixa, mas otimistas pensando que, se não veríamos uma lagoa de água salgada poderíamos pelo menos tomar um banhozinho de mar. Nos enganamos de novo. Eu estava sentada na beira da praia e já assustada com a invasão da água. A situação piorou quando o dono do quiosque colocou nossa mesa praticamente em cima de um barranco.

Mas, eu estava decidida a me banhar no mar e me arrisquei mesmo assim. Não fiquei nem 10 minutos na água que me arrastava para tudo quanto era lado. Não preciso nem falar que não demorou muito para nós dois decidirmos ir embora. Diante disso nossa impressão não foi das melhores e infelizmente não conseguimos mudá-la porque não conseguimos ver Muro Alto durante o período de maré baixa. Mas, vale a dica, se perdeu o horário das marés, evite conhecer as praias para não se decepcionar. Fique na piscina do hotel, vá para a vilinha gastar dinheiro...

Aí onde estão as jangadas são onde ficam as piscinas naturais. Com a maré baixa você consegue ir a pé, mas, se não der, com R$ 10 por pessoa os jangadeiros te levam até elas. Ah, e também dão ração para você jogar para os peixes. Outra coisa que não aprovei...


Essa piscina, por causa do formato, recebeu o nome de "mapa do Brasil". De acordo com um taxista, ela já foi mais parecida com nosso mapa, mas, devido as visitações os turistas acabaram quebrando alguns pedaços.

Isso aí é no meio do mar. No caminho encontramos diversas espécies marítimas e poças com peixinhos.

Crédito das fotos: Ricardo Nechar

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Shakespeare e os Grandes Amores e os Amores Possíveis

[Inédito]
Por Anacris Maia

Será que os grandes amores só são grandes porque não foram vividos? Será que Shopenhauer estava certo quando afirmava que um desejo satisfeito logo perde sentido e outro surge no lugar? Somos mesmo tão insaciáveis assim? É comum, ainda que não declarado, cada um de nós carregarmos histórias de amores inesquecíveis.

Essas histórias impossíveis nos sustentam e nos aquecem nos invernos da vida. Relembrar bons momentos de épocas em que estávamos ingenuamente, inocentemente apaixonados e felizes trazem sim, aconchego e calmaria para nossas tormentas pessoais. Por motivos que a gente desconhece ou conhece muito bem, não deu certo. Os dias de paz e leveza se foram e o tempo tratou de arrastar as lembranças dessa época boa para um canto qualquer, guardado em nós e no qual temos acesso sempre que queremos.

Hoje, numa aula de Língua Portuguesa em que durante toda a semana discutimos a produção do texto teatral, resolvi dar uma relaxada e passar o filme Shakespeare Apaixonado (Shakespeare in love, EUA, 1998) para uma turma do primeiro ano do Ensino Médio. Enquanto eles assistiam o filme, observava seus rostinhos se emocionando e se envolvendo com a história do poeta e dramaturgo inglês que ao encontrar sua musa, a jovem Viola, se inspira para escrever a maior história de amor de todos os tempos: Romeu e Julieta.

Tudo corria bem, até o final revelador, mas nem tanto, de que o pobre casal não teria chance de viver seu grande amor. Ao fim do filme, comentários indignados do tipo “não gostei do filme, ele não fica com ela”, “nada a ver esse final professora!” fervilhavam na sala. Depois de uma breve conversa, afinal faltavam só alguns minutos para o fim da aula, tentei acalmar o ânimo dos mais românticos mostrando a idéia central do filme que era o paralelo entre a vida do autor e sua principal obra. Mas, ao sair daquela sala, eu quem tive a inspiração para escrever esse texto.

Eu não sei se os grandes amores só são grandes porque não foram vividos. Eu teria que ter tido a chance de vivê-lo, teria de ter tido a chance de convivê-lo e também teria que viver no mínimo uns 200 anos para errar, assumir o erro, voltar para então concluir se esse amor era mesmo tudo o que eu havia idealizado. Mesmo assim, deixei-me envolver pelo otimismo juvenil e da idéia de amor eterno e felizes para sempre que aparentemente 90% da sala demonstrou esperar.

Grandes amores, talvez só sejam grandes, porque o que amamos é o que idealizamos que seria caso a história se concretizasse. Amamos a idéia que temos da pessoa e vivemos em retrospectiva, recorrendo a lembranças de dias, semanas, meses ou quem sabe anos que passamos juntos, mas, não deu certo. Um grande amor não foge ao ideal platônico. Ele nos faz bem porque na nossa idéia de relação, tudo é perfeito.
As falas são ditas no momento exato, o amparo vem do jeito certo, o roteiro foi escrito por nós e o mais legal, como protagonistas-mocinho, sempre nos damos bem.

Outro dia estava pensando porque sofremos tanto quando rompemos com alguém. Minha tese é a de que nosso sofrimento é gerado por conta de que nossa mente, enganadora e seletiva, superestima os bons momentos e subestima os maus. Ou seja, de repente, aquela pessoa tornou-se perfeita de novo, os defeitos que antes eram odiados tornam-se estranhamente “engraçadinhos”. Nossa memória apaga tudo de ruim que vivemos ao lado da outra pessoa: brigas constantes, ciúmes doentio, insensibilidade, indiferença, egoísmo, narcisismo, incoerência, insegurança...

O fim da relação já tinha começado há muito tempo por esses e outros motivos, mas, no momento em que chegamos em casa e nos vemos sozinhos no nosso quarto, na nossa cama, nossas ilusões voltam, nossos desejos renascem, nossa ânsia de grande amor se instala e começamos novamente a imaginar o outro, sim, aquele cara que já não tinha mais a menor graça no dia-a-dia, de repente ganha o título de grande amor perdido.

Mas, voltando ao tema inicial, será que é possível nos sentirmos satisfeitos com nosso “médio amor” frente à busca inesgotável que temos de encontrar o “grande”? Será que somos mesmo pura insatisfação? Teremos que conviver por toda a vida acreditando que a grama do vizinho é sempre mais verde? O sociólogo Zygmunt Bauman em sua obra Amor Líquido mostra a fragilidade das relações ao apontar nossa dificuldade em criar vínculos, pois ao assumir um relacionamento estamos automaticamente excluindo todas as outras opções, ou seja, todos os outros ou outras que poderiam ser nossos grandes amores.

Até aí ok, na teoria estamos afiados. Mas, e na prática? Todas as tentações, tantas possibilidades, tantos anseios e desejos. Às vezes, penso que a resposta é uma só: assumir os riscos. Isso significa às vezes, ter sim que perder um grande amor porque enquanto ele estava com a gente não conseguíamos reconhecê-lo como tal. Significa se decepcionar, se frustrar, significa ter que descer ao inferno pra ver se consegue um pouco de paz. É só com porradas e perdas que a gente aprende mesmo.

O problema é que pagar pra ver – ou não pagar – implica maturidade e se responsabilizar pelos danos. Podemos já ter encontrado nosso grande amor, mas, ainda estamos presos ao amor idealizado, então, nos sentimos insatisfeitos. Da mesma forma, podemos arriscar um “grande amor real” em busca de um “grande amor ideal” e percebermos o monte de tralha no meio da estrada. Podemos romper com esse idealismo e viver em paz com nosso amor de realidade, nosso amor possível ou podemos tentar encontrar o impossível, mas, quem garante que não é mais uma ilusão como tantas outras? Ninguém nunca pagou o preço pra contar...
Agora, quando estamos presos em barca furada e percebemos isso, aí a história muda de figura. Mas, mesmo reconhecendo isso, a decisão às vezes demora. Cada um tem seu tempo. Cada um sabe até onde consegue suportar. Normalmente a gente sabe o quanto vale – por favor, sem apelo capitalista ou financeiro – e se nos contentamos com menos é mais por uma questão de conformismo que covardia.
Por isso, por convicção e experiência sei que um dia a gente se liberta, conseguimos colocar um basta em tudo que nos desagrada, que apequena nossa alma, nossos sonhos, nossas buscas. O preço a pagar é alto? Eu acho que é alto pra caramba! Mas, é uma escolha. Podemos testar nossas possibilidades ou ficar com nossa vidinha confortável, mas ordinária.



titulo original: (Shakespeare in Love)
lançamento: 1998 (EUA)
direção: John Madden
atores: Joseph Fiennes, Gwyneth Paltrow, Geofrey Rush,
Judi Dench, Ben Afleck, Colin Firth
duração: 2'04''
gênero: Comédia

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Estou ficando louca?

[Inédito]

Por Anacris Maia

Advertência: este é um texto non sense que levará à lugar nenhum. Foi uma tentativa vã de organizar as idéias que andam entulhadas em minha cabeça, uma vontade de se sentir bem e um pouco em paz.


Como sabemos que estamos certos? Qual a linha que separa o melindre do bom senso? Há alguém que verdadeiramente conheça esse limite? A todo o momento estamos recebendo informações, trocando idéias, agindo, reagindo e refletindo sobre as ações dos outros para conosco e no fim, quem tem razão? Aliás, existe razão ou apenas lados a serem tomados ou recusados? A imparcialidade é um mito, nunca ninguém foi imparcial. Há crenças, afinidade, empatia e toda uma avalanche de sentimentos que não nos permite adotar essa postura.

O filósofo medieval Pedro Abelardo (1079 - 1142) dirá que nossas intenções são o que valem, portanto, se formos mal interpretados em nossa ação ou se ela descambar para um caminho diferente do planejado podemos nos eximir da culpa, porque a priori nosso plano era outro. Já o contemporâneo – mas, nem tanto – Nietzsche (1844 – 1900) desconsidera a verdade e afirma que não há certo ou errado, apenas perspectivas diferentes frente a uma mesma situação.

Como ainda não temos o dom da telepatia para reconhecermos as intenções que levaram determinada pessoa a tomar uma atitude que sob o nosso ponto de vista não foi agradável, contamos apenas com nossas impressões e perspectivas para “julgarmos” aquilo que fazem conosco. E aqui, também tem um problema. Se formos pusilânimes e condescendentes demais corremos o risco de sermos bobos, aquele tipo que as pessoas fazem de gato e sapato e num coitado que se conforta com um “ah, ele não tinha intenção” e passa a vida aceitando maltrato, se contentando com migalhas e relacionamentos pela metade.

Por outro lado, temos aqueles que querem ter sempre razão e muitas vezes não enxergam que suas ações, ainda que sem intenção, magoam. Querer ter sempre razão é como enxergar com um olho só, o outro olho que está tampado ou cego não permite visão periférica, não permite enxergar o que o outro está descrevendo e vivenciando. Como na cabeça do cegueta ele não tinha intenção de magoar, não consegue compreender porque o outro se sente tão magoado.

Como saber que não estamos fazendo tempestade em como d’água? Como saber se não estamos neuróticos e loucos frente a tantas explicações de tantos atos que nos ocorrem diariamente e de alguns que nos ferem? E se não temos razão para sentir tanto, porque sentimos? Por que dói? Acho que sentir deve significar alguma coisa, não?

Mas, frente a isso abrimos um outro leque de possibilidades: muitas vezes aquilo que me magoa, passaria despercebido por “a” ou “b” e muitas coisas que chatearia “a” ou “b” não teriam sentido pra mim, talvez, seriam até engraçadas e divertidas. Estou com a sensação de estar como um cachorro girando atrás do rabo. Esse texto não vai chegar a lugar nenhum!

Por que as vezes nos sentimos vítimas? As vezes nos sentimos certos? As vezes nos sentimos abandonados? Excluídos? Pouco amados? Feridos? Os livros de auto-ajuda responderiam que você se sente assim porque seu olhar sobre si mesmo está destorcido, porque sua auto-estima está baixa ou quem sabe porque se permite. Será mesmo que somos tão birutas a ponto de gostarmos de sentirmos tudo isso que sentimos e continuemos cultivando essas sensações?

Amados 100% por todas as pessoas que conhecemos é impossível. Eu não amo 100% das pessoas que conheço, portanto, não posso exigir isso delas. De algumas, suas ações não me afetam. Outras, me entristecem. No fim das contas, deve ser tudo desejo de aceitação de quem para mim tem importância. Mas, e se damos importância para quem não nos dá importância?... É, uma coisa leva a outra e discutir esse assunto é pensar possibilidades elevadas ao infinito. Cansei de brincar de escrever por hoje.