quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Estou ficando louca?

[Inédito]

Por Anacris Maia

Advertência: este é um texto non sense que levará à lugar nenhum. Foi uma tentativa vã de organizar as idéias que andam entulhadas em minha cabeça, uma vontade de se sentir bem e um pouco em paz.


Como sabemos que estamos certos? Qual a linha que separa o melindre do bom senso? Há alguém que verdadeiramente conheça esse limite? A todo o momento estamos recebendo informações, trocando idéias, agindo, reagindo e refletindo sobre as ações dos outros para conosco e no fim, quem tem razão? Aliás, existe razão ou apenas lados a serem tomados ou recusados? A imparcialidade é um mito, nunca ninguém foi imparcial. Há crenças, afinidade, empatia e toda uma avalanche de sentimentos que não nos permite adotar essa postura.

O filósofo medieval Pedro Abelardo (1079 - 1142) dirá que nossas intenções são o que valem, portanto, se formos mal interpretados em nossa ação ou se ela descambar para um caminho diferente do planejado podemos nos eximir da culpa, porque a priori nosso plano era outro. Já o contemporâneo – mas, nem tanto – Nietzsche (1844 – 1900) desconsidera a verdade e afirma que não há certo ou errado, apenas perspectivas diferentes frente a uma mesma situação.

Como ainda não temos o dom da telepatia para reconhecermos as intenções que levaram determinada pessoa a tomar uma atitude que sob o nosso ponto de vista não foi agradável, contamos apenas com nossas impressões e perspectivas para “julgarmos” aquilo que fazem conosco. E aqui, também tem um problema. Se formos pusilânimes e condescendentes demais corremos o risco de sermos bobos, aquele tipo que as pessoas fazem de gato e sapato e num coitado que se conforta com um “ah, ele não tinha intenção” e passa a vida aceitando maltrato, se contentando com migalhas e relacionamentos pela metade.

Por outro lado, temos aqueles que querem ter sempre razão e muitas vezes não enxergam que suas ações, ainda que sem intenção, magoam. Querer ter sempre razão é como enxergar com um olho só, o outro olho que está tampado ou cego não permite visão periférica, não permite enxergar o que o outro está descrevendo e vivenciando. Como na cabeça do cegueta ele não tinha intenção de magoar, não consegue compreender porque o outro se sente tão magoado.

Como saber que não estamos fazendo tempestade em como d’água? Como saber se não estamos neuróticos e loucos frente a tantas explicações de tantos atos que nos ocorrem diariamente e de alguns que nos ferem? E se não temos razão para sentir tanto, porque sentimos? Por que dói? Acho que sentir deve significar alguma coisa, não?

Mas, frente a isso abrimos um outro leque de possibilidades: muitas vezes aquilo que me magoa, passaria despercebido por “a” ou “b” e muitas coisas que chatearia “a” ou “b” não teriam sentido pra mim, talvez, seriam até engraçadas e divertidas. Estou com a sensação de estar como um cachorro girando atrás do rabo. Esse texto não vai chegar a lugar nenhum!

Por que as vezes nos sentimos vítimas? As vezes nos sentimos certos? As vezes nos sentimos abandonados? Excluídos? Pouco amados? Feridos? Os livros de auto-ajuda responderiam que você se sente assim porque seu olhar sobre si mesmo está destorcido, porque sua auto-estima está baixa ou quem sabe porque se permite. Será mesmo que somos tão birutas a ponto de gostarmos de sentirmos tudo isso que sentimos e continuemos cultivando essas sensações?

Amados 100% por todas as pessoas que conhecemos é impossível. Eu não amo 100% das pessoas que conheço, portanto, não posso exigir isso delas. De algumas, suas ações não me afetam. Outras, me entristecem. No fim das contas, deve ser tudo desejo de aceitação de quem para mim tem importância. Mas, e se damos importância para quem não nos dá importância?... É, uma coisa leva a outra e discutir esse assunto é pensar possibilidades elevadas ao infinito. Cansei de brincar de escrever por hoje.

3 comentários:

PattyM disse...

Olá Ana,

Cheguei ao seu blog porque estou pesquisando sobre desapego. E me identifiquei muito com esse texto seu, que vc diz ser nonsense.

Liguei as idéias expostas nele a uma texto que li na Super sobre felicidade (tem um post em http://pensamentosdepattym.blogspot.com/2010/07/felicidade.html). No final, conclui que as pessoas mais felizes são aquelas que não se cobram fazer sempre as melhores escolhas. Então, acredito que o caminho seja fazer a escolha que julgamos certa, sem nos cobrar se foi a melhor. E seguir em frente!

Eu adoraria encontrar um manual da vida dizendo o que está certo e o que está errado, com um sistema de pontuação bem claro, que não me desse dúvida de qual caminho seguir, mas acho que ninguém vai escrever isso! :)

Estou lendo os outros artigos do seu blog e curtindo bastante.

Um grande abraço,
Patrícia

Anacris Maia disse...

Olá Patrícia, como vai? Seja muito bem-vinda aqui no Produção, fiquei muito feliz em ler seu comentário...

Concordo contigo quando diz que devemos escolher o caminho que nos cabe no momento e seguí-lo, sem nos cobrar se foi o certo ou o melhor, mas, sim a escolha que conseguimos fazer diante de determinada situação. O correto, no manual da vida - se ele existisse - seria isso mesmo.

René Descartes em seu Discurso do Método diz claramente isso, sobre não ter arrependimento das nossas escolhas, apenas seguir e assumir as responsabilidades.

O problema disso tudo é quando esbarramos no outro. Vivemos em sociedade, convivemos, magoamos e somos magoados, as vezes de forma intencional, outras não. Temos desejo de ser aceitos e amados pelas nossas faltas e limites, buscamos isso, mas, as vezes é tão difícil... Acho que foi Drummond que escreveu "A vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida". É isso, erramos tentando acertar, acertamos quando achavámos que erraríamos, enfim, a existência é esse caos absurdo e algumas vezes sem sentido. Não tem um caminho, são vários e em alguns a gente se perde em outros se acha..."Perder-se, também é caminho", escreveu Clarice Lispector.

Gostei muito do que escreveu sobre existir um manual para a vida, com uma pontuação bem clara para não deixar dúvida... Seria bem mais simples, mas, assim como você, as coisas que lemos nos dão um norte, nunca uma resposta.

Apareça sempre que puder e quando der, deixe um comentário para trocarmos figurinhas. Quem sabe partilhando não conseguimos ir clareando nossos caminhos e aprendendo a ver a vida sobre outros prismas.

Grande abraço!!!

PattyM disse...

Olá Ana,
Você tocou em um ponto importante: "o outro". É tão complicado esse equilíbrio de ficar felizes e deixar o outro também feliz. As nossas "melhores" escolhas não o são necessariamente para as outras pessoas, o que pode gerar descontentamento. Mas, não tem muito o que fazer. Temos, apenas, que estar atentas a isso!
Um abraço!