quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Shakespeare e os Grandes Amores e os Amores Possíveis

[Inédito]
Por Anacris Maia

Será que os grandes amores só são grandes porque não foram vividos? Será que Shopenhauer estava certo quando afirmava que um desejo satisfeito logo perde sentido e outro surge no lugar? Somos mesmo tão insaciáveis assim? É comum, ainda que não declarado, cada um de nós carregarmos histórias de amores inesquecíveis.

Essas histórias impossíveis nos sustentam e nos aquecem nos invernos da vida. Relembrar bons momentos de épocas em que estávamos ingenuamente, inocentemente apaixonados e felizes trazem sim, aconchego e calmaria para nossas tormentas pessoais. Por motivos que a gente desconhece ou conhece muito bem, não deu certo. Os dias de paz e leveza se foram e o tempo tratou de arrastar as lembranças dessa época boa para um canto qualquer, guardado em nós e no qual temos acesso sempre que queremos.

Hoje, numa aula de Língua Portuguesa em que durante toda a semana discutimos a produção do texto teatral, resolvi dar uma relaxada e passar o filme Shakespeare Apaixonado (Shakespeare in love, EUA, 1998) para uma turma do primeiro ano do Ensino Médio. Enquanto eles assistiam o filme, observava seus rostinhos se emocionando e se envolvendo com a história do poeta e dramaturgo inglês que ao encontrar sua musa, a jovem Viola, se inspira para escrever a maior história de amor de todos os tempos: Romeu e Julieta.

Tudo corria bem, até o final revelador, mas nem tanto, de que o pobre casal não teria chance de viver seu grande amor. Ao fim do filme, comentários indignados do tipo “não gostei do filme, ele não fica com ela”, “nada a ver esse final professora!” fervilhavam na sala. Depois de uma breve conversa, afinal faltavam só alguns minutos para o fim da aula, tentei acalmar o ânimo dos mais românticos mostrando a idéia central do filme que era o paralelo entre a vida do autor e sua principal obra. Mas, ao sair daquela sala, eu quem tive a inspiração para escrever esse texto.

Eu não sei se os grandes amores só são grandes porque não foram vividos. Eu teria que ter tido a chance de vivê-lo, teria de ter tido a chance de convivê-lo e também teria que viver no mínimo uns 200 anos para errar, assumir o erro, voltar para então concluir se esse amor era mesmo tudo o que eu havia idealizado. Mesmo assim, deixei-me envolver pelo otimismo juvenil e da idéia de amor eterno e felizes para sempre que aparentemente 90% da sala demonstrou esperar.

Grandes amores, talvez só sejam grandes, porque o que amamos é o que idealizamos que seria caso a história se concretizasse. Amamos a idéia que temos da pessoa e vivemos em retrospectiva, recorrendo a lembranças de dias, semanas, meses ou quem sabe anos que passamos juntos, mas, não deu certo. Um grande amor não foge ao ideal platônico. Ele nos faz bem porque na nossa idéia de relação, tudo é perfeito.
As falas são ditas no momento exato, o amparo vem do jeito certo, o roteiro foi escrito por nós e o mais legal, como protagonistas-mocinho, sempre nos damos bem.

Outro dia estava pensando porque sofremos tanto quando rompemos com alguém. Minha tese é a de que nosso sofrimento é gerado por conta de que nossa mente, enganadora e seletiva, superestima os bons momentos e subestima os maus. Ou seja, de repente, aquela pessoa tornou-se perfeita de novo, os defeitos que antes eram odiados tornam-se estranhamente “engraçadinhos”. Nossa memória apaga tudo de ruim que vivemos ao lado da outra pessoa: brigas constantes, ciúmes doentio, insensibilidade, indiferença, egoísmo, narcisismo, incoerência, insegurança...

O fim da relação já tinha começado há muito tempo por esses e outros motivos, mas, no momento em que chegamos em casa e nos vemos sozinhos no nosso quarto, na nossa cama, nossas ilusões voltam, nossos desejos renascem, nossa ânsia de grande amor se instala e começamos novamente a imaginar o outro, sim, aquele cara que já não tinha mais a menor graça no dia-a-dia, de repente ganha o título de grande amor perdido.

Mas, voltando ao tema inicial, será que é possível nos sentirmos satisfeitos com nosso “médio amor” frente à busca inesgotável que temos de encontrar o “grande”? Será que somos mesmo pura insatisfação? Teremos que conviver por toda a vida acreditando que a grama do vizinho é sempre mais verde? O sociólogo Zygmunt Bauman em sua obra Amor Líquido mostra a fragilidade das relações ao apontar nossa dificuldade em criar vínculos, pois ao assumir um relacionamento estamos automaticamente excluindo todas as outras opções, ou seja, todos os outros ou outras que poderiam ser nossos grandes amores.

Até aí ok, na teoria estamos afiados. Mas, e na prática? Todas as tentações, tantas possibilidades, tantos anseios e desejos. Às vezes, penso que a resposta é uma só: assumir os riscos. Isso significa às vezes, ter sim que perder um grande amor porque enquanto ele estava com a gente não conseguíamos reconhecê-lo como tal. Significa se decepcionar, se frustrar, significa ter que descer ao inferno pra ver se consegue um pouco de paz. É só com porradas e perdas que a gente aprende mesmo.

O problema é que pagar pra ver – ou não pagar – implica maturidade e se responsabilizar pelos danos. Podemos já ter encontrado nosso grande amor, mas, ainda estamos presos ao amor idealizado, então, nos sentimos insatisfeitos. Da mesma forma, podemos arriscar um “grande amor real” em busca de um “grande amor ideal” e percebermos o monte de tralha no meio da estrada. Podemos romper com esse idealismo e viver em paz com nosso amor de realidade, nosso amor possível ou podemos tentar encontrar o impossível, mas, quem garante que não é mais uma ilusão como tantas outras? Ninguém nunca pagou o preço pra contar...
Agora, quando estamos presos em barca furada e percebemos isso, aí a história muda de figura. Mas, mesmo reconhecendo isso, a decisão às vezes demora. Cada um tem seu tempo. Cada um sabe até onde consegue suportar. Normalmente a gente sabe o quanto vale – por favor, sem apelo capitalista ou financeiro – e se nos contentamos com menos é mais por uma questão de conformismo que covardia.
Por isso, por convicção e experiência sei que um dia a gente se liberta, conseguimos colocar um basta em tudo que nos desagrada, que apequena nossa alma, nossos sonhos, nossas buscas. O preço a pagar é alto? Eu acho que é alto pra caramba! Mas, é uma escolha. Podemos testar nossas possibilidades ou ficar com nossa vidinha confortável, mas ordinária.



titulo original: (Shakespeare in Love)
lançamento: 1998 (EUA)
direção: John Madden
atores: Joseph Fiennes, Gwyneth Paltrow, Geofrey Rush,
Judi Dench, Ben Afleck, Colin Firth
duração: 2'04''
gênero: Comédia

4 comentários:

Ana Bárbara disse...

Shakespeare in love! Ai que lindo, eu amo esse filme, é um dos filmes que mais me inspiram criativamente, hehe
Sou uma admiradora de Shakespeare e não poderia não gostar...
Engraçado, acho que estamos sintonizadas, pq estava pensando em temas semelhantes e nesse tipo de amor, como os amores épicos em si, os amores românticos e os amores concretos!

"Será que os grandes amores só são grandes porque não foram vividos?"

Pergunta que eu não sei responder, mas talvez eu tente responder de uma maneira diferente, não digo todos os casos, mas a maioria dos casos eu me pergunto se os grandes amores só são grandes porque não tiveram continuidade...?
Será que se Romeu e Julieta tivessem ficado juntos estariam juntos para sempre? Ou suas mortes foram suficientes para eternizar esse amor? Será que Julieta se estivesse viva e conseguido ficar com Romeu ela teria encontrado um ou vários Leonardos e Romeu encontrado várias belas donas por aí? rs
Vai saber! Na peça, anteriormente a conhecer Julieta Romeu estava magoado porque sofria de amor por uma moça, que agora não lembro o nome da personagem, rs
Romeu, o eterno apaixonado, conhece Julieta, a moça que agora ele diz ser sua amada, e de fato o era, para ele desejar até morrer por ela, hehe, mas ambos eram adolescentes, ela com 14 anos e ele com 16 ou 17. Talvez o rompimento mostre que não teve continuidade e daí fique a sensação de querer estar com a pessoa, isso também até pode ser algo interior de um amor verdadeiro (ou não?) isso é tão antigo e tão humano que me pergunto se não faz parte de nossa natureza mesmo. Desfavorecemos nossos grandes amores ou inaltecemos exageradamente esquecendo os defeitos, dizemos que não deu certo porque acabou, mas a vida é presente, então se acabou dizemos que não deu certo, mas claro que deu certo! Por isso é memorável. Não se amavam loucamente enquanto estavam juntos? Então deu certo sim, e também tem vários fatores, algumas relações acabam e não valiam de fato a pena, outras podiam ter valido mais, e outras até tem retorno das pessoas, se eles viram que o amor deles era maior...
Na verdade me baseando nos maiores contos de amor, vejo que foram vividos, suas vidas foram rompidas, Tristão e Isolda juntos e fazendo amor, se encontrando as escondidas, eles viveram mas as escondidas, Sir Lancelot e Lady Guinevere, e esse é um dos maiores triângulos amorosos da literatura mundial, os grandes amores da antiguidade não acontecia entre conjuges, acho que por isso que sempre separei amor de casamento tão fortemente, claro que hoje os valores são os outros e não somos obrigados a casar pq nossos pais desejam isso, mas a lenda do impossível, do amor que não se liga ao compromisso "do contrato" de casamento, a união se faz entre o coração dos amantes, o valor da união do casamento é condição de tradição, que ao meu ver extermina o amor e paixão, digo principalmente na antiguidade, não colocando esses valores atualmente...
E te digo, nunca desejaria ser tratada como esposa, para viver comigo ele precisa sempre me ver como a amante eterna, como uma deusa do amor, ser louco de paixão, rsrs
a esposa se restringe a ser "esposa do marido", a ter uma vida que ao meu ver é medíocre, e essa vida tão sem graça e sem beleza eu tenho horror! Por isso também me é atraente e extremamente fascinante a figura da prostituta, ela sim é uma das personificações da deusa do amor de maneira mais intensa e carnal... Ela livre da imposição social e da sociedade do casamento, que tanto assusta, rsrsrs

Beijãooo

Ana Bárbara disse...

Continuando...
Posso dizer que vivi (mesmo com tempestades) uma relação de coração das duas partes como um romance épico, mesmo que possa ter sido em um instante eu posso dizer que vivi isso, no primeiro beijo com a pessoa, como os grandes amores que romperam preconceitos, e não o é o negro e mouro Otelo e sua Desdêmona? Uma relação de amor da antiguidade entre pessoas de raças diferentes... me magoei sim, mas não posso dizer que não vivi...
Pensei em uma coisa... por mais que encontramos amores e amores e amores na vida, algumas pessoas mexem de maneira mágica conosco, é a questão da reciprocidade, quando amamos e sabemos que o outro também nos ama como o amamos isso dispara o coração, o coração sabe quando o outro ama, e isso é lindo, não tem como eu deixar de achar, seria feiúra demais da alma desconsiderar isso, mas os defeitos que matam a relação não podem ser deixados de lado, e muitas vezes precisam ser colocadas na balança para avaliarmos o que mais vale a pena, tem coisas que podem ser perdoadas, tem coisas que envenenam demais e outras que com uma conversa tudo se resolve, as vezes as pessoas mudam, as vezes amadurecem e por isso resolvem se separarem ou o contrário, ficarem juntas...
Não sei dizer a vida dela a vc, mesmo pq seria grande demais falando aqui rs, mas um exemplo de uma pessoa que teve vários amores foi Elizabeth Taylor, se casou 8 vezes mas sempre teve uma relação que parecia um conto épico do mundo contemporâneo com o ator Richard Burton, não sei se posso dizer isso mas parece que ele fora seu verdadeiro amor...

Ana Bárbara disse...

Consertando tbm algo que escrevi, disse antiguidade me refererindo ao fato de ser antigo e não o período em si, que é conto renascentista, hehe

Beijos

Anacris Maia disse...

Como é bom te ler amiga... Adoro seus comentários, sua sensibilidade. Também concordo contigo quando afirma que, ainda que a relação não teve continuidade não significa que não deu certo. Pôxa, vivemos tantas coisas ao longo da vida, umas boas outras nem tanto, mas, o fato é que quando convivemos com o outro de forma intensa, ainda que não dure, sempre temos histórias para contar, sempre temos lembranças, saudades e é isso alegra nossa vida. "Que seja eterno, enquanto dure".

Também gostei do que escreveu sobre os grandes romances épicos serem de fato intensos e grandiosos por não estarem atrelados ao compromisso convencional do casamento, do contrato. Não tinha feito esse paralelo, logo fez todo sentido pra mim o que escreveu. Quando amamos de verdade não precisamos de convenções e formalidades. O amor acaba sendo o em si e o por si.

Beijão, amiga!!!