segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Relacionamento é feito de paixão e algo mais

Publicado em 25.06.2009
Por: Anacris Maia

Não tem coisa que produza mais material para o blog do que conversa no boteco com amigos – homens e mulheres. A perspectiva que ambos os sexos têm em relação a paixão não é apenas diferentes, mas, também engraçada. Se de um lado as mulheres querem um homem apaixonado, educado, um “amante à moda antiga, do tipo que ainda manda flores” e abre a porta do carro, os homens por outro lado acham isso uma chatice sem tamanho que nada tem a ver com estar apaixonado.

Diante disso vivo me perguntando se a idéia que tenho de paixão – e que a maioria das mulheres têm – foi construída e sentida por nós mesmas ou idealizada pela avalanche de comédias românticas que pelo menos a maioria de nós simplesmente adora. É quase impossível não dar um suspiro diante de uma frase dita na hora e momento certo. Ou depois de uma discussão ver o mocinho ir até o encontro da mocinha todo arrependido e dizendo que a ama. Atire a primeira pedra, que mulher não se derrete – e chora – vendo essas comédias deliciosas?

E é comum nós mulheres, nos sentirmos frustradas em nossas relações por não conseguirmos mais ter o clima apaixonado e de conquista depois de algum tempo de namoro. Seguido disso, vem o ceticismo: “homem apaixonado não existe”, “homem só é romântico em início de namoro, quando está nos conquistando”. Será que me pleno século XXI ainda não deixamos nossas heranças ancestrais e continuamos sendo presas a ser caçadas pelos homens?

O que posso afirmar é que a insatisfação é generalizada. Até que um amigo se levanta a favor dos homens e pronuncia a sentença fatal: “Garanto que vocês iriam nos julgar pegajosos se fizéssemos isso durante dois meses”. E no fundo ele tem um pouco de razão, afinal, tudo que é demais sufoca, irrita... Ligar 24 horas por dia deixa de ser saudade e passa a ser vigilância. Lotar sua caixa de e-mail e te cobrar para respondê-los é pensar que a gente não tem nada o que fazer durante o dia – e cá entre nós, parece que ele também não. Flores também são bem-vindas, desde que na medida certa, afinal, chega uma hora que acabam-se os vasos e só nos resta colocar uma plaquinha na frente de casa anunciando “Floricultura Relâmpago”. Enfim, quando se trata de mulher é comum o homem pecar por falta ou excesso.

E o problema é esse mesmo, homem não conhece a justa medida. Ou sufoca ou deixa correr solto. É óbvio que não queremos ser asfixiadas com tanta doçura, mas, também não precisa nos tratar como lugar comum ou em linguagem mais primitiva, como caça abatida. Reconhecemos que depois de um tempo os agrados diminuem – DIMINUEM, não DESAPARECEM – o que pelo menos para nós mulheres acaba dando uma “mornada” na relação.

Mas, não é por mal. Mulher gosta de encantamento e de ser bem tratada. Mulher gosta de receber um telefonema fofo no final da noite, depois de um dia atribulado e também de ter uma palavra amiga quando a coisa não está fácil. Mulher não gosta de ver tratada suas limitações e inseguranças como chatice ou loucura. Mulher gosta de se sentir especial e amada, independente das flores, torpedos, fogos de artifícios e declarações apaixonadas.

Somos difíceis de agradar, no entanto, gestos simples nos conquistam. Particularmente vejo que os homens não sabem mais como lidar conosco. Estão divididos: de um lado, querem puxar a cadeira para que sentemos, mas, de outro se sentem acuados só de pensar num possível “eu consigo puxar uma cadeira sozinha”, das mulheres mais “bem-resolvidas”.

É claro que uma relação é feita de detalhes bem mais importantes que cordialidades e etiquetas. O que ameaça uma relação e isso vale tanto para homens quanto para nós mulheres, é que nossa capacidade de manter interesse e enxergar o outro como alguém especial e único tem se tornado cada vez mais difícil. Descartamos celular antigo, computador obsoleto, sapatos do ano passado, em suma, perdemos cada vez mais o olhar de novidade que o outro exerceu – e que exercemos sobre o outro – durante um tempo.

Por isso, o namoro, casamento, rolo ou qualquer outro tico-tico no fubá se desgasta. A gente enjoa fácil, se empolga fácil, enfim, tudo é muito fácil... Com tantas novidades de acesso rápido e ao alcance das mãos fica difícil manter-se o que é antigo. Manter o “olhar de primeira vista” torna-se um desafio e também um exercício constante de resgatar diariamente a lembrança daquele sorriso que te conquistou, daquele ombro que te amparou na hora do choro, das piadas ditas depois de algumas garrafas de vinho e dos micos que renderam boas risadas.

Se por um lado, relacionamentos novos são recheados de surpresa, são as histórias de um relacionamento antigo que mantém duas pessoas unidas. Tornar objetos descartáveis é uma coisa, tornar pessoas descartáveis é sinal dos tempos. Sinal que estamos confundindo as coisas e que nossa vontade de ser feliz pode ser apenas um poço sem fundo onde nada satisfaz e tudo é efêmero. Como disse no início, achar a justa medida é fundamental, assim como a paixão, para não jogarmos fora o que já levou um tempo para ser conquistado e construído.

Quem assistiu "O Melhor Amigo da Noiva", sabe que uma relação é feita de amizade, afinidade, descoberta, um Patrick Dempsey...

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