quarta-feira, 9 de março de 2011

Por favor, descontrole-se!

Por Anacris Maia

"Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura." Nietzsche

Controle-se! Siga as regras! Leia o manual! Não ligue primeiro para não demonstrar desespero! Transe só depois do vigésimo encontro para não ser vista como fácil! Transe logo de cara para se mostrar segura e descolada! Essas e tantas outras regrinhas são comuns em revistas femininas e livros do gênero que com a promessa de sucesso nas relações cativam (de aprisionar) a mente feminina.

Num tempo muito distante, ao ler essas dicas eu me sentia um verdadeiro fracasso porque eu faço exatamente TUDO o que NÃO se deve fazer numa relação. Ligo quando sinto vontade, falo o que sinto (entregar o jogo para o outro? Tsc, tsc, tsc... Pecado mortal, condenada ao inferno dos relacionamentos!) e faço o que eu quero. Minha natureza intensa, não consegue se submeter a tais regras.

Sou uma mulher sem manual, por isso, distante de ser ideal. Essas regras, aliás, são muito úteis para quem quer se manter no controle. Mantenha-se indiferente! Mantenha a calma! MANTENHA DISTÂNCIA, por favor! Afinal, quem suporta a convivência com alguém tão controlador assim? Tudo se torna certinho demais, chatinho demais, frio demais...

Mas, convenhamos se controlar tem lá suas vantagens: você não sofre, não se decepciona, delimita suas ações e como uma equação matemática não surpreende quando a regra é aplicada corretamente. Fico pensando se Romeu e Julieta, Abelardo e Heloísa, Tristão e Isolda, Elizabeth Bennet e Mr. Darcy viveriam o romance intenso e épico retratado em suas histórias com as regras de hoje. Afinal, todos esses casais, ficcionais ou não, superaram desavenças familiares, guerras de clãs, separações, orgulho e preconceito...

Nos relacionamentos modernos não há mais espaço para o espontâneo, o descontrole, o risco, a loucura...Tudo é meticulosamente estudado e avaliado. Casais buscam uma compatibilidade perfeita que vai desde gostarem do mesmo gênero musical até o mesmo nível social. Como se tivéssemos preguiça ou falta de tempo para aprender com as vivências e experiências diferentes que o outro nos traz. Estamos bem menos tolerantes.
E agora me pergunto: todos querem viver verdadeiras histórias de amor, mas, como isso é possível se estamos seguindo uma única cartilha? Amor virou um jogo de poder onde vence quem não se descontrola. Mostrar insegurança, fragilidade, vulnerabilidade? Nem pensar!
Até as histórias de amor se pasteurizaram. Todos querem ser únicos e diferentes fazendo tudo igual! O que nos torna apaixonados e apaixonantes são nossas peculiaridades, nosso jeito “fora-do-comum”. É aquele jeito de gargalhar gostoso onde todos mostram seriedade e reserva. É a forma leve e bem-humorada de encarar um sábado chuvoso quando se tinha planejado um piquinique. É fazer exatamente o contrário daquilo que as pessoas esperam que você faça. É surpreender!

A calmaria e o controle tem tornado nossa vida e nossas relações um tédio. A segurança inibe a dor, mas, impede que histórias incríveis desabrochem. As carapaças impermeabilizam e distanciam qualquer tentativa de intimidade. Não dá para exigir da paixão etiqueta, sensatez, domínio. E o que mais me surpreende em todas essas “receitas” é que na verdade elas tornam as relações contratuais, onde analisamos os riscos, pesamos prós e contras, nos ensinam a racionalizar a emoção.

Calamos, quando na verdade queremos berrar. Tudo isso para se manter na razão. Tudo isso para ter razão. Eu sei que eu não deveria ligar quando acabei de discutir e o pior, quando eu sei que tenho razão sobre a discussão - e também quando eu não tenho razão nenhuma. Mas, mesmo assim eu ligo! Às vezes, acho meio humilhante, mas, aí me pergunto: me controlar e não ligar, vai me fazer feliz? Quantas vezes vejo pessoas perdendo tempo e se matando por dentro só para não darem o braço a torcer! Alguns vão ler isso e me taxarão de fraca, carente, “boazinha” (esse é o pior!), mas, a verdade é que entre ter razão, controle e orgulho eu escolho sentir, eu escolho ser feliz.

Vale ler: O Elogio da Loucura – Erasmo de Roterdã. Se você usar somente a razão você não casa, não tem filhos, não curte cada fase da sua vida, não se ilude, nem tem esperança ou se apaixona... É nossa dose de loucura que nos ajuda a suportar a existência.

Vale ver/ler: Razão e Sensibilidade. Esse romance da escritora inglesa Jane Austen mostra o contraste entre as duas irmãs Elinor (mais racional) e Marianne (passional e emotiva) que divididas entre obrigações sociais e seus sentimentos buscam o equilíbrio para alcançarem à felicidade.