sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Síndrome de Amélia

Por Anacris Maia


A gente precisa arrumar a casa, lavar, passar, cozinhar, cuidar do marido, estudar, ser bem sucedida, inteligente, antenada com moda e tendências, andar com unhas e cabelos sempre impecáveis e ainda ser uma ninfomaníaca na cama... Ufa!!! Mas, será que a gente precisa mesmo? Tenho minhas dúvidas...
Acho que essa obrigação toda que carregamos - principalmente quando o assunto é cuidar da casa e marido – vem mais de uma cultura e educação patriarcal e, sem exageros, uma questão moral do que uma verdade. Você tem pilhas de livros para estudar e uma pilha de louças para lavar. Você titubeia e se escolhe os livros, se sente culpada por não ter nem mais um copo limpo para beber água. Se escolhe a louça, se descabela em ansiedade seja porque precisa estudar para uma prova importante
ou para entregar um artigo do mestrado.
Há seis meses vivo em conflito com minhas obrigações e meus interesses. Acredito que as mulheres que me lêem também. Nos primeiros meses, os livros
ficaram encostados, desprezados num canto, enquanto eu, tentando provar sabe-se lá para quem – minha mãe, minha sogra, outras mulheres – que eu era uma dona de casa modelo. Pura perda de tempo. Quando eu terminava a louça do almoço e pensava em tirar um momento “só meu”, logo via a louça se multiplicar como gremlins.
Tô meio cansada de ser mulher maravilha, sabe? Até porque ninguém exigiu de mim essa postura. Eu assumi. Por educação, imposição cultural, enfim, porque eu quis. E como se não bastassem as tarefas domésticas, tinha que ser impecável em todas as outras atividades. É ou não é início de neurose?

O problema é que quando vamos assumindo essas coisas seja para provar sabe-se lá o que e para quem, ficamos um pouco – ou muito rabugentas – e de repente, vamos jogando o papel de namorada de lado para dar lugar à “mãe-chata” que vive dando ordem, reclamando porque acabou de limpar e tem outro sujando, enfim, vida a dois em decadência...
Percebendo esses sintomas, a primeira coisa que fiz foi relaxar. Minha casa, nunca vai estar 100% impecável, nem mesmo em dia de faxina. Uma loucinha ou
outra sempre vai ter, porque não quero me tornar uma bitolada que a cada colher que usa precisa lavar. Eu tenho coisas bem mais interessantes para fazer. Assim como você que me lê, também.
Então, a menos que você sofra de TOC, resista!
A casa não ficará inabitável só porque se permitiu alguns prazeres. Rompa com essa força que diz “tem que ser assim” ou pelo menos a questione. Amélia não era mulher de verdade. Se culpar porque o quarto está meio caótico, porque as
almofadas estão fora de lugar significa que está perdendo um tempo precioso de curtir sua casa e quem a divide com você.


************************


Para finalizar, deixo este texto de autoria de Lena Gino. Recebi de uma amiga e traduz o que eu acredito ser um lar...

Casa arrumada é
assim...
Um lugar
organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa entrada de luz.
Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um cenário de
novela.
Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando móveis, afofando
almofadas...
Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo: “aqui tem vida!”
Casa com vida para mim, é aquela em que os livros saem da prateleira e os enfeites brincam de
trocar de lugar.
Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições fartas, que chamam todo mundo para a cozinha.
Sofá sem mancha?
Tapete sem fio puxado?
Mesa sem marca de copo?
Tá na cara que é casa sem festa.
E se o piso não tiver arranhão, é porque ali ninguém dança.
Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.
Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante, passaporte e vela de
aniversário, tudo junto.
Casa com vida é aquela que a gente entra e se sente bem-vinda.
A que está sempre pronta pros amigos, filhos, netos, vizinhos...
E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca ou namora a qualquer hora
do dia.
Casa com vida é aquela que a gente arruma para ficar com a cara da gente.
Arrume sua casa todos os dias.
Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo para viver nela...
E reconhecer nela o seu lugar.

4 comentários:

Danilo Silva disse...

Enfim um novo texto! Ótimo como sempre!

Anacris Maia disse...

hahahaha, a gente tem que respeitar o tempo da inspiração! Obrigada pelo elogio e por passar por aqui... Abraços.

Anônimo disse...

moro com minha namorada e nós duas sabemos muito bem disso!

A casa deve ser habitável,limpa e confortável! Para nós duas,não para ficar "se exibindo" para visitas!

Confesso que sofro um pouco com a organização impecável e neurótica,sou neurótica, gosto de cada coisa em seu lugar. Mas minha namorada sabe me avisar quando estou exagerando e me chama de chata! Aí caio na cama agarrando o corpo gostoso e cainhoso dela e começamos a bagunçar o quarto novamente...!

Marina Hall

Vitríolo de Marte disse...

certíssima. parabens pelo texto.